Um dia de chuva

dia de chuva

Nesses anos dedicados ao atendimento às pessoas com necessidades especiais, tenho várias histórias para contar, como diriam os caipiras, “diversos causos”. Vou começar pelo comentário mais “sem noção” que alguém poderia fazer. Vamos lá.

Eu cursava a especialização em Pacientes com Necessidades Especiais na APCD, em São Paulo, no ano de 2001. Atendíamos todos os tipos de pacientes com necessidades especiais, entre eles os deficientes visuais.

Em um dia de chuva muito feio mesmo, com uma chuva torrencial e raios para todos os lados, eu teria que atender o Sr. José, paciente com deficiência visual, um cara muito legal e bem-humorado, graças a Deus…

Fui buscá-lo na recepção:

– Boa tarde, Sr. José. Tudo bem? Vamos entrar na clínica?

– Oi, minha querida. Tudo ótimo. Os pés estão um pouco molhados, pois a chuva não para, e minha esposa não conseguiu me acompanhar hoje, então acabo pisando nas poças d’água.

Nesse momento eu olhei para a janela da APCD. O tempo havia fechado de vez, estava tudo escuro, e eu, que morro de medo de temporal e trovões, fiquei desorganizada mentalmente. Então veio o meu comentário absolutamente sem noção:

– Nossa! Veja como está ficando escuro. Acho que vai cair um temporal horroroso. Eu morro de medo.

– Para mim, é sempre escuro.

Silêncio absoluto.

Até hoje penso que deveria ter me desculpado, mas, sinceramente, em alguns momentos, o silêncio vale ouro.

E assim vamos aprendendo a conviver e respeitar as diferenças.


Adriana ZinkAdriana Zink
Cirurgiã-dentista. Especialista em Pacientes com Necessidades Especiais (PNE). Presidente da Câmara Técnica de PNE do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP). Mestre em Ciências da Saúde. Doutoranda em Odontopediatria.

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