Quero a boca igual a dele

Lembro-me que um trompetista agendou uma consulta comigo. Ele chegou ao meu consultório no dia e horário marcados, e eu perguntei como poderia ajudá-lo.

Para minha surpresa, ele respondeu da seguinte maneira: “Bom, doutor, eu fiquei sabendo que o senhor atende o ‘fulano’ (trompetista brasileiro renomado no Brasil e no exterior), e eu queria que o senhor deixasse minha boca igual a dele, para que eu toque igual a ele”.

Não soube o que responder e, por alguns segundos, fiquei olhando para ele, sem acreditar no que ouvi.

Respirei fundo e respondi que era impossível fazer isso, afinal, cada um tem uma anatomia, cada um tem um formato de rosto e, mesmo que fosse possível fazer uma cópia exata da boca do “fulano”, ele não poderia tocar como ele, pois não era o tratamento que fazia isso, mas sim o estudo do instrumento.

Ele achou que era má vontade da minha parte e nunca mais voltou.

A expectativa do paciente supera qualquer limite.


alexandreAlexandre de Alcântara
Cirurgião-dentista. Há duas décadas, atua no atendimento aos músicos de sopro no Brasil. É responsável pelo parecer que o Conselho Federal de Odontologia emitiu em 2012, onde o mesmo entendeu que o músico de sopro requer necessidades especiais em seu atendimento. Possui Medalha de Honra ao mérito pela Ordem dos Músicos do Brasil (Conselho SP) pelos serviços prestados à música. É autor do livro “Odontologia para Músicos de Sopro” e coautor das obras “Saúde para Músicos” e “O Cirurgião-Dentista frente à AIDS”.

DEIXE UMA RESPOSTA