Cuidados bucais ao músico sopro-instrumentista

Cuidados bucais ao músico

O Conselho Federal de Odontologia certificou, há três anos, o músico de sopro como um paciente com necessidades especiais. A entrevista com cirurgião-dentista Alexandre de Alcântara, responsável por tal reconhecimento, apresenta um pouco sobre esse universo e fala sobre a importância de cuidados bucais específicos que devem ser prestados ao artista.

Por: Vanessa Navarro

Local Odonto – Estudos mostram que os movimentos realizados repetidamente e com frequência podem contribuir para algum tipo de dano ao corpo humano. Como a execução da música por meio de instrumentos de sopro pode afetar a saúde bucal do artista?
Alexandre de Alcântara – O que mais afeta a saúde bucal do músico de sopro é o medo que eles têm em fazer um tratamento odontológico que possa afetar a sua forma de tocar. A interferência na sua performance o levaria a uma interrupção total ou parcial de sua carreira e, consequentemente, a uma dificuldade no seu sustento profissional e no seu prazer em tocar.

Um músico não visa só o aspecto profissional. Ele anseia a melhora da sua performance durante sua vida toda. São pessoas dedicadas aos estudos dos seus instrumentos e da arte musical desde o início na infância – geralmente com sete a oito anos de idade – até o momento em que as limitações físicas da idade o impeçam de continuar tocando.

Em alguns países, os músicos de sopro têm uma carreira muito curta, principalmente pela perda dos dentes.  Em países orientais existem instrumentos exóticos, que apoiam sobre as estruturas bucais de forma diferente dos instrumentos mais conhecidos, como saxofones, trompetes, etc.

Como exemplo, existem instrumentos onde a produção sonora vem da garganta, como se o músico estivesse entubado. Nestes, a projeção do ar se dá em partes do instrumento colocado dentro da boca, chegando próximo a úvula.

Quando a saúde bucal está mantida por um profissional, principalmente a saúde periodontal, o instrumento causa pouca ou nenhuma interferência na performance.

Com o avanço da idade e a falta de cuidados associadas a pouco ou nenhum tratamento, o ato de tocar repetidamente um instrumento faz com que as doenças periodontais e, consequentemente, as perdas dentárias aumentem significativamente, bem como as DTMs causadas por movimentos não funcionais repetidos durante anos.

Um exemplo que uso muito para os colegas é o do compressor odontológico ou o do cilindro de ar comprimido. Imaginem que o pulmão do músico é o compressor e que a boca é a saída de ar da seringa tríplice. O compressor bombeia ar continuamente, ele enche a mangueira, e quando a apertarmos controlamos o quanto de ar precisamos. O músico faz dentro do instrumento uma coluna quase que contínua de ar preenchendo todo o tubo; e a boca e seus músculos anexos são os controladores deste ar que irá produzir as notas musicais.

Se na seringa tríplice tivermos algum tipo de impureza dentro da mangueira ou na saída da mesma, o ar não sairá como queremos. No instrumento de sopro, o ar tem de entrar e vibrar de forma muito controlada pelos músicos, e é aí que o apoio sobre as estruturas bucais pode ser excessivo, causando deslocamentos mandibulares, DTMs, movimentação errônea de incisivos, mobilidade dental e lesões labiais e jugais.

Local Odonto – Qual é a importância do atendimento odontológico diferenciado para a classe? Como deve ser feito esse atendimento?

Alexandre de Alcântara – A segurança dada pelo cirurgião-dentista de que ele continuará tocando enquanto faz o tratamento é o mais importante.

O músico, ao se sentir seguro com o profissional, fará o que for melhor para ele, pois também é um paciente interessado em manter seus dentes e anexos saudáveis. Significa prolongar a carreira e, talvez, até promover uma melhor performance.

O tratamento é o mesmo que fazemos no dia a dia. A diferença está no entendimento das queixas do paciente em relação à performance musical e a relação desta com as estruturas bucais.

É importante estudar como funcionam os instrumentos de sopro para entender o paciente quando ele chegar ao consultório.

Saber como é um bocal, qual sua função, entender a postura corporal para tocar estes instrumentos e, principalmente visualizar a fisiologia respiratória do mesmo como parte deste atendimento.

Os movimentos mandibulares, a ATM, a palpação e uma boa conversa na primeira consulta ajudam em todo o tratamento.

Não é preciso estudar música para atender um músico de sopro. Conhecer o paciente e o instrumento que ele usa pode auxiliar o cirurgião-dentista em todo o tratamento.

O músico tem uma sensibilidade muito alta de seus dentes. Um simples excesso em uma restauração por vestibular nos dentes envolvidos na embocadura pode fazer com que ele machuque os lábios, ou pode fazer com que ele mude o posicionamento do bocal. Só que eles não querem esta mudança, porque a mesma fará com que ele estude uma nova posição e uma nova forma de tocar, e isso sempre afeta o desempenho.

Uma ótima dica é fazer um modelo de estudo das arcadas do paciente antes de começar o tratamento. Isso traz segurança para o paciente e para nós, dentistas.

Local Odonto – Em 2012, o Conselho Federal de Odontologia emitiu o parecer 717, no qual reconhece que o músico de sopro é um paciente especial. Qual é a importância dessa conquista tanto para o profissional quanto para o paciente?

Alexandre de Alcântara – É muito importante para nós, profissionais de saúde bucal, que os Conselhos estejam atentos a novos caminhos para a Odontologia. Até o momento, desconheço algum outro país que tenha assumido o músico de sopro da mesma forma que o CFO assumiu.

Entende-lo como paciente com necessidades especiais dá ao músico de sopro uma importância além daquelas dadas na Odontologia Ocupacional.

O CFO entendeu que as necessidades destes pacientes passam por todas as especialidades da Odontologia, desde a Odontopediatria e Ortodontia, já que os músicos geralmente começam na infância; até a Odontogeriatria, pois muitos não se aposentam totalmente; fatores que explicam o porquê dessa classificação como OPNE.

Tal entendimento também protege o cirurgião–dentista no sentido legal, fazendo com que o mesmo se previna ao atender músicos de sopro, evitando processos como alguns já ocorridos nos EUA, onde o músico processou um colega dentista por tratamento inadequado, prejudicando o desempenho e a carreira do indivíduo.

Para o paciente, é uma conquista também, pois os músicos são sempre vistos como boêmios, e não como profissionais dedicados. As diversas sinfônicas espalhadas pelo mundo comprovam a importância destes profissionais. Em algumas orquestras no Brasil, o ganho de um músico ultrapassa 10 salários mínimos, isso para que ele fique dedicado exclusivamente a determinada instituição, o que significa, no mínimo, cinco horas diárias de contato da boca com o instrumento musical.

Local Odonto – O mercado para o atendimento de tais pacientes especiais tem crescido no Brasil e no mundo? Existe dados estatísticos que apontem o número de profissionais que se especializam no segmento tão complexo?

Alexandre de Alcântara – O mercado cresce no mundo todo, pois todos os dias surge um novo músico de sopro. O mercado da música é imenso, e o que não falta é músico no mundo todo. Infelizmente são poucos ou pouquíssimos profissionais da saúde que dedicam o seu tempo a pesquisas e ao atendimento focado nestes profissionais.

Não há estatísticas, porque são pouquíssimos profissionais que se dedicam e declaram que estão direcionados a este atendimento em todo o mundo.

O Brasil deu um passo importante na Odontologia mundial, mostrando que está atento aos seus pacientes e as suas reais necessidades.

Existem, no Brasil, muitos colegas interessados neste atendimento, e o número de alunos que me procuram para ajudar em trabalhos de conclusão de curso aumenta ano a ano. Certamente, muitos destes alunos serão pesquisadores deste tema após a graduação, fazendo aumentar este número de profissionais dedicados aos músicos de sopro.

Em um mercado competitivo tão como o nosso, onde há falta de pacientes para atendimento, a diversificação pode ser uma alternativa para esta carência.

Um cirurgião-dentista pode atender uma vida toda e nunca ter um paciente músico de sopro. Mas todo músico tem um cirurgião-dentista que o atende. Se o colega estudar o músico e os instrumentos de sopro, certamente seu trabalho será atrativo para estes profissionais.

 


alexandre_alcantraAlexandre de Alcântara é cirurgião-dentista. Há duas décadas, atua no atendimento a músicos de sopro no Brasil. É responsável pelo parecer que o Conselho Federal de Odontologia emitiu em 2012, onde o mesmo entendeu que o músico de sopro requer necessidades especiais em seu atendimento. Possui Medalha de Honra ao mérito pela Ordem dos Músicos do Brasil, Conselho SP, pelos serviços prestados à música. É autor do livro “Odontologia para Músicos de Sopro” e coautor das obras “Saúde para Músicos” e “O Cirurgião-Dentista frente à AIDS”.

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