Um equívoco comercial e social

síndrome de down

Caro amigo dentista, começo a minha coluna dando os parabéns pelo último dia 25 de outubro, o nosso dia.

Você que acredita ter escolhido um meio de trabalhar cuidando de pessoas, misturando ciência e arte ao mesmo tempo, acertou em cheio ao escolher essa linda profissão. Você sabe da importância de respeitar o próximo, cuidando de sua saúde, proporcionando melhora na qualidade de vida e elevando sua autoestima. Sabe também que milhares de pessoas estão à margem dos benefícios proporcionados pela nossa querida Odontologia. Não vou me delongar falando da imensa população que não tem absolutamente nenhuma condição econômica de procurar um dentista. Mas vou citar aquele que, independentemente de sua condição socioeconômica, dificilmente consegue encontrar um dentista que possa ajudá-lo: o paciente com necessidade especial.

Sou dentista formado há 35 anos, há 30 anos me dedico aos “especiais”. Estima-se que em nosso país, segundo o censo de 2010, existem 45 milhões de pessoas com alguma deficiência, um contingente bastante razoável, maior que de muitos países por aí. Muitos, mas muitos deles, se não todos, precisam de dentistas e não encontram, e pasmem: o maior problema não é financeiro, e sim encontrar um “bendito” profissional que se disponha a atendê-lo. Vejo isso a todo instante no meu consultório.

Recentemente recebi um paciente com paralisia cerebral, com 20 e poucos anos, há 10 não ia ao dentista. Morador em um condomínio de altíssimo padrão na região metropolitana de São Paulo, o pai do rapaz, empresário de sucesso, perguntava-me onde estavam os dentistas que cuidavam desses pacientes. Eu respondi que realmente são poucos. Não posso culpar a família, a condição socioeconômica não era impeditiva para o tratamento, mas a falta de profissionais sim.  Nem vou computar pacientes que vêm de outras cidades e de outros estados. A queixa é, na maioria das vezes, a mesma: “ninguém cuida do meu filho, na minha cidade”.

Para escrever este texto dei uma olhada na minha agenda das duas últimas semanas, constatei algo que nunca me importei tanto: 28% dos meus pacientes eram “especiais”. Para o próximo final de semana, tenho programado três tratamentos em hospital. Por falta de datas, vou atender até no domingo, se não houver nenhuma intercorrência com a paciente que, por condições clínicas, já adiei duas vezes. Não posso me queixar, levando em consideração que minha dedicação é exclusiva ao consultório, não sendo exclusiva aos “especiais”. Acontece que eles movimentam o consultório, vêm de longe e têm poucas alternativas no percurso.

De maneira geral, as queixas dos profissionais são: dificuldade nas cobranças pelos serviços, barreiras arquitetônicas, inexperiência com “especiais”, quebra da alteração da rotina do consultório, crença de que existe a necessidade de equipamento especial, falha na comunicação com a família e com o paciente. Todos os itens descritos são de fácil resolução, com um pouco de profissionalismo e respeito.

Lamento que isso seja um equívoco estratégico, comercial e social, principalmente nesses tempos bicudos. Os sinais são claros que, com as mudanças dos tempos, os cirurgiões-dentistas serão procurados cada vez mais para prestar serviços a esta população. Infelizmente estudos relatam que apenas 20% dos profissionais se sentem confortáveis, demonstrando boa vontade em executar os serviços.

Somos considerados um país com uma Odontologia de primeira qualidade, “top no mundo”, vangloriamo-nos disso. Posso dizer que na atenção aos pacientes especiais, a nossa Odontologia carece de componentes que não se ensinam na faculdade: a sensibilidade e falta de visão comercial.


jose reynaldoJosé Reynaldo Figueiredo
Cirurgião-dentista. Doutor em Ciências Odontológicas. Mestre em Deontologia e Odontologia Legal. Especialista em Odontopediatria. Especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Especialista em Implantodontia. Vice-Presidente da Associação Brasileira de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais (ABOPE). Membro do Conselho e do Comitê de Educação da iADH (International Association for Disability and Oral Health). Membro do Grupo de Trabalho, do Ministério da Saúde referente às “Diretrizes de Atenção à Saúde Bucal da Pessoa com Deficiência no SUS”. Responsável pela “Clínica Sorrisos Especiais”.

1 COMENTÁRIO

  1. Usted tiene tanta razón mi estimado doctor…es imprescindible seguir preparando a los futuros odontologos en una visión más inclusiva y sin miedos y tabues…la odontología para pacientes con necesidades especiales debe ser llevada a cabo por todo aquel que tenga la vocación para hacerlo y la preparación para ello debe ser accesible a todos los niveles

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