Saúde bucal do paciente com diabetes

diabetes

Por: Vanessa Navarro

Doença crônica e de origem metabólica, o diabetes é caracterizado por um aumento anormal do açúcar ou glicose no sangue. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o número de pessoas com diabetes no mundo, em 2014, era de 422 milhões de pessoas, 46% delas sem diagnóstico prévio. Para a América Central e a América do Sul, essa estimativa era de 24 milhões de pessoas, podendo chegar a 38,5 milhões em 2035 – um aumento projetado de 60%. Para o Brasil, o contingente estimado, de 11,9 milhões de casos, pode alcançar 19,2 milhões em 2035.

Sobre a população mais acometida pela doença, o cirurgião-dentista e mestre em Ciências Endocrinológicas, Marcello Gaieta Vannucci, explica que, de acordo com Iser et  al. 2013, no artigo “Prevalência de diabetes autorreferido no Brasil: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde 2013”, a partir do número de adultos que referiram diagnóstico de diabetes na amostra, foi possível expandir o número de casos para a população brasileira de 18 anos ou mais de idade: 9.121.631 (IC95% 8.634.051- 9.609.211) adultos referiram ter diagnóstico prévio de diabetes: 5.433.262 mulheres e 3.688.369 homens. A prevalência da doença reportada foi de 6,2% (IC95% 5,9-6,6), sendo maior nas mulheres (7,0%; IC95% 6,5-7,5) comparativamente aos homens (5,4%; IC95% 4,8-5,9). A prevalência de diabetes aumentou com o avanço da idade, atingindo aproximadamente 20% da população das faixas etárias de 65 a 74 anos e de 75 anos ou mais, um contingente superior a 3,5 milhões de pessoas.

De acordo com a Federação Internacional do Diabetes, o Brasil está entre os 10 países com mais portadores de diabetes no mundo. “Diante desse cenário, o cirurgião-dentista precisa, em primeiro lugar, saber diferenciar os tipos de diabetes. Em segundo lugar saber como está o controle metabólico do paciente para que ele possa ser tratado adequadamente. Isso envolve o conhecimento por parte do cirurgião-dentista do conhecimento de exames clínicos complementares, como hemoglobina glicada (HbA1c) e glicemia de jejum”, explica o especialista.

A presença do diabetes pode passar despercebida entre os portadores, razão para maior atenção do cirurgião-dentista durante a anamnese do seu paciente. A IDF estima que 50% das pessoas com diabetes desconhecem ser portadoras da doença. “Ao realizar a anamnese, iremos observar por exemplo, que o paciente apresenta hipertensão arterial e/ou obesidade. No padrão bucal, poderemos detectar falta de dentes no adulto, em consequência de doença periodontal crônica; e gengivite, no paciente no jovem. Este paciente pode apresentar um quadro de diabetes”, explica Vannucci. “Caso o paciente não saiba se possui diabetes, é aconselhável orientá-lo para realizar uma consulta urgente com o endocrinologista, para confirmar ou não o diabetes melito. A anamnese, por ser o primeiro contato entre paciente e profissional, é de suma importância para detectar sinais e sintomas que possam interferir no tratamento odontológico”, completa o cirurgião-dentista.

Diabetes e a saúde bucal

As doenças bucais mais comuns nos portadores de diabetes são a doença periodontal e a xerostomia.

De acordo com o especialista, no diabetes do tipo 1, no jovem, a maior prevalência é a doença periodontal leve a moderada, pois, em razão de apresentar menos exposição ao diabetes e à doença periodontal, apresenta-se em sua maior prevalência em suas manifestações iniciais. “Já no adulto, o diabetes do tipo 2 apresenta muitas vezes mais do que cinco anos de diabetes e, consequentemente, também maior exposição à doença periodontal moderada a grave”.

Para monitorar o tratamento, este deve ser realizado em conjunto com o endocrinologista, para que os parâmetros relativos ao diabetes sejam controlados pelo endocrinologista, como glicemia em jejum e a hemoglobina glicada em níveis adequados.

O diabetes também afeta toda a defesa do organismo, principalmente o sistema circulatório, dificultando a reparação dos tecidos ósseos e moles, fator que pode interferir na saúde bucal.

Vannucci explica que a resposta imunológica no paciente portador de diabetes é alterada, e isso interfere na cascata de eventos durante a cicatrização e reparo cirúrgico, principalmente quando é realizado enxertos ósseos, que requerem como fator primordial de sucesso a microcirculação como fator determinante.

Cuidados especiais ao portador de diabetes

O cirurgião-dentista precisa manter um bom relacionamento com a equipe multidisciplinar envolvida no cuidado ao paciente portador de diabetes, essa relação pode prevenir ou minimizar complicações no tratamento do paciente com a doença.  “A partir do momento que a abordagem é multidisciplinar, o paciente que apresenta diabetes é visto e tratado como um todo, para que haja não só um plano de tratamento das doenças bucais presentes, mas também para realizar um plano de prevenção odontológica adequado, para que exista melhora no controle metabólico e, por consequência, manutenção adequadas dos níveis glicêmicos”, explica o também doutor e especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial.

Outro tema relevante associado aos cuidados especiais ao portador de diabetes é em relação à prescrição de medicamentos. Havendo necessidade de o cirurgião-dentista prescrever anti-inflamatórios não-esteroides para um paciente portador de diabetes, tanto do tipo 1 quanto do tipo 2, faz-se necessário solicitar informações com o médico que atende o paciente. “Os anti-inflamatórios mais indicados para pacientes diabéticos são benzidamina e diclofenaco. No caso de dor leve, dipirona ou paracetamol são os analgésicos mais bem indicados. No que tange aos antibióticos, a prescrição deve ser feita em casos de infecções bucais, extrações e antes de qualquer procedimento cirúrgico. Os mais indicados são as penicilinas ou cefalosporinas, e, em casos de pacientes alérgicos, a eritromicina”, alerta o especialista.

Diabetes no futuro

O diabetes foi responsável por mais de 470 mil mortes em todo o Brasil entre 2000 e 2010, segundo o Ministério da Saúde. Em resposta à afirmação, o cirurgião-dentista e mestre em Ciências Endocrinológicas explica que Odontologia pode e deve contribuir para reverter este quadro. “Acredito que deve haver um melhor e amplo treinamento dos cirurgiões-dentistas, tanto da rede pública de saúde como do setor privado, para entender como é a manifestação das doenças bucais no paciente com diabetes e como controlar os fatores responsáveis por esta relação de dupla via, que interfere diretamente nas duas doenças”.

Diante do questionamento sobre o preparo da Odontologia brasileira para iminente crescimento do diabetes até 2030, Dr. Vannucci defende que os profissionais de saúde bucal estão preparados para esse grande desafio. “Hoje em dia, com acesso a informações via web e a vários centros onde estão sendo realizados estudos com diferentes abordagens, não se justifica a falta de conhecimento de uma relação bidirecional amplamente abordada e em constante evolução”.

Uma das alternativas concretas para alcançar um tratamento eficiente e eficaz aos pacientes portadores de diabetes, é conscientizá-los sobre as visitas constantes ao consultório odontológico. “Quando conscientizamos o paciente sobre as visitas periódicas, seja para o controle periodontal, ou para visitas de controle pós-tratamento, o paciente percebe a real importância da saúde bucal bem controlada, o que interfere diretamente, não só na parte bucal, mas como no seu controle metabólico. A informação bem orientada apresenta ótimos resultados, e o paciente percebe a qualidade de vida por meio de um bom estado de saúde”, enfatiza o especialista. “A assistência humanizada e especializada, realizada de maneira correta, colabora com ótimos resultados no tratamento, pois acolhe o paciente com suas queixas e possibilita a realização de um bom tratamento tanto médico como odontológico”, completa.

Dicas preciosas

O cirurgião-dentista e mestre em Ciências Endocrinológicas, Marcello Gaieta Vannucci, separou algumas dicas essenciais sobre como prestar um atendimento de qualidade ao paciente com a doença.

  • Oriente o paciente portador de diabetes a realizar visitas periódicas ao cirurgião-dentista generalista e especialista, de acordo com as suas individuais necessidades de tratamento.
  • Pergunte ao paciente portador de diabetes se suas gengivas sangram com frequência.
  • Informe ao paciente portador do diabetes que o tratamento odontológico regular contribui de maneira eficiente e eficaz no controle do seu diabetes juntamente com seu tratamento médico.
  • Ao sinal de inflamações gengivais, o paciente portador da doença deve entrar em contato com profissional cirurgião-dentista o mais breve possível para possibilitar o diagnóstico precoce de doença gengival e/ou periodontal o paciente se encontra.
  • Oriente o paciente portador de diabetes em relação ao diabetes e suas implicações, em particular aos que apresentam um controle metabólico deficiente, demonstrando que a doença periodontal é considerada a sexta complicação do diabetes melito.

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