Efeitos da obesidade na saúde bucal

Obesidade

Por: Vanessa Navarro

No Brasil, a Pesquisa do Ministério da Saúde (Vigitel 2014) alertou que o excesso de peso já atinge 52,5% da população adulta do país. Tal taxa, em 2006, era de 43%, o que representa um crescimento de 23%.

A cirurgiã-dentista Silvia Helena de Carvalho Sales Peres, especialista e mestre em Odontologia em Saúde Coletiva, e doutora em Biologia Oral, também sinaliza sobre a preocupação com a proporção de pessoas com mais de 18 anos com obesidade, que hoje atinge 17,5%, embora este percentual não tenha sofrido alteração nos últimos anos.

“Os quilos a mais na balança são fatores de risco para doenças crônicas, como as do coração, hipertensão e diabetes, que respondem por 72% dos óbitos no Brasil. Entre os homens e as mulheres brasileiros, são eles que registram os maiores percentuais. O índice de excesso de peso na população masculina chega a 56,5% contra 49,1% entre elas, embora não exista uma diferença significativa entre os dois sexos quando o assunto é obesidade (17,5%)”, aponta a especialista.

Em relação à idade, os jovens com idade entre 18 e 24 anos são os que registram as melhores taxas, com 38% pesando acima do ideal, enquanto as pessoas de 45 a 64 anos ultrapassam 61%. Em relação à prevalência de excesso de peso e obesidade por escolaridade, a pesquisa apontou que quanto menor a escolaridade, maior o índice de obesidade. O estudo demonstrou que as pessoas com menor escolaridade registram a maior índice, 58,9%.

A cirurgiã-dentista explica que o impacto da escolaridade é ainda maior entre as mulheres, em que 24,4% das portadoras de obesidade apresentam menor nível de escolaridade (0-8 anos).

As mesmas diferenças se repetem com os dados de obesidade. O índice é maior entre os que estudaram por até oito anos (22,7%) e menor entre os que estudaram 12 anos ou mais (12,3%).

Obesidade e comorbidades prevalentes

Dados clínico apontam que pacientes com obesidade grave tendem a apresentar maior incidência de comorbidades.

De acordo com a Dra. Silvia Helena de Carvalho Sales Peres, que também é livre-docente em Odontologia Preventiva e Social, a transição demográfica, o aumento da expectativa de vida, as modificações na estrutura social, as mudanças dos padrões de consumo, a crescente urbanização e as descobertas propiciaram mudanças significativas nas sociedades. “A transição nutricional tem sido observada em todo mundo e se caracteriza por modificações no estilo de vida, proporcionando diminuição da desnutrição e crescente aumento do excesso de peso nas pessoas”.

A obesidade é considerada um problema de Saúde Pública em todo mundo. A doença crônica leva à alteração nos fatores metabólicos e inflamatórios e induz ao aparecimento de doenças crônicas. Caracteriza-se pelo aumento do armazenamento de gordura ou acúmulo anormal ou excessivo de gordura sob a forma de tecido adiposo, porém é uma doença complexa, multifatorial, na qual ocorre uma sobreposição de fatores genéticos, comportamentais e ambientais e é de difícil manejo.

Dentre as comorbidades relacionadas à obesidade, podem-se citar diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, arteriosclerose, artrite, síndrome de apneia do sono, refluxo gastresofágico, infertilidade e incontinência urinária em mulheres, disfunções endócrinas, disfunção da vesícula biliar, problemas pulmonares, alguns tipos de câncer, doença periodontal, falta de habilidade para atividades diária, problemas psicossociais e econômicos.

“Dentre as opções terapêuticas para obesidade, destaca-se o tratamento clínico, que é inclusive parte integrante do tratamento cirúrgico, no qual se adotam estratégias de mudança no estilo de vida, por meio da melhora no padrão alimentar, incentivo a prática de atividades físicas e uso de medicamentos. Entretanto, quando essas estratégias não obtêm sucesso, torna-se necessária intervenção mais eficaz por meio do procedimento cirúrgico, que é realizado por mecanismo de restrição e/ou má-absorção dos alimentos ingeridos, conhecida como cirurgia bariátrica”, explica a especialista.

A obesidade e a saúde bucal

Perguntada sobre como a obesidade pode interferir na saúde bucal do paciente, a cirurgião-dentista, que se dedica à formação de pesquisadores em epidemiologia e na atenção em saúde do paciente obeso, prontamente informou os principais problemas: “A obesidade predispõe o indivíduo a problemas bucais, como a doença periodontal, erosão dentária relacionada ao refluxo gastresofágico, cárie dentária e xerostomia. A obesidade tem sido relacionada com a severidade da doença periodontal, podendo apresentar valores alarmantes em pacientes obesos mórbidos indicados à cirurgia bariátrica. A elaboração de um protocolo de atenção à saúde, envolvendo a saúde bucal dos pacientes obesos e bariátricos, é essencial para que o cirurgião-dentista possa prevenir, orientar e tratar, além de melhorar a qualidade de vida dessa população”.

Dra. Silvia alerta que a doença periodontal já não é identificada apenas como um problema de saúde bucal, mas também uma questão global, uma vez que está associada à saúde sistêmica.

“As doenças periodontais são resultados de infecções crônicas e inflamatórias de baixo grau, que podem agravar a inflamação em curso em órgãos distantes, por via hematogênica ou linfática. A doença periodontal é um processo patológico de caráter inflamatório que atinge os tecidos periodontais, tais como a gengiva, e ainda pode progredir com processos de destruição das estruturas que suportam os dentes, sendo a principal causa de perda total ou parcial de dentes em adultos. Em indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica, se o tecido ósseo da maxila e mandíbula for afetado, poderá levar a perda dentária por comprometimento do periodonto de sustentação. Fato este que poderá influenciar no resultado da cirurgia, uma vez o paciente não terá capacidade mastigatória adequada, dificultando a sua digestão ou mesmo permitindo a deglutição de alimentos não triturados”, explica. “Portanto, recomenda-se que o paciente obeso mórbido candidato à cirurgia bariátrica, seja submetido ao tratamento e acompanhamento odontológico, para que problemas bucais não possam prejudicar o resultado da cirurgia”, completa.

Quando o assunto é qualidade de vida

O cirurgião-dentista tem papel primordial na conscientização do paciente obeso sobre sua qualidade de vida, visando a saúde bucal e, consequentemente, saúde geral.

Dietas pouco saudáveis e sedentarismo são fatores de risco para as principais doenças não transmissíveis, como as doenças cardiovasculares, câncer e diabetes. O cirurgião-dentista deve considerar que a obesidade e alguns problemas bucais têm os mesmos fatores de risco, como a dieta, desde a infância.

“A cárie dentária é uma doença que ocorre como resultado da exposição ao fator de risco dietético ao longo da vida. Ser livre de cáries na infância não significa ser livres de cárie para a vida inteira. Em adição, cárie dentária está ocorrendo também em adultos. Portanto, redução em risco de cárie dentária na infância tem um grande significado mais tarde na vida. Sendo assim, orientação para alimentação saudável, prática de exercícios físicos e higiene geral e bucal são itens necessários para melhorar a qualidade de vida deste indivíduo”, defende a também docente do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou novas diretrizes com recomendações para limitar o consumo de “açúcares livres”, que visam reduzir casos de obesidade e cárie dentária, por exemplo. Neste contexto, o profissional de saúde bucal pode e deve atuar como um grande motivador para que tais medidas venham ser adotadas.

Segundo a Dra. Silvia, neste momento, é preciso salientar que “açúcares livres” incluem monossacarídeos e dissacarídeos adicionados aos alimentos e bebidas pelo fabricante, cozinheiro ou consumidor, e os açúcares naturalmente presentes em mel, xaropes, sucos de frutas e sucos de frutas concentrados. “Dessa forma, maior ingestão de açúcares livres ameaça a qualidade de nutrientes de dietas, uma vez que fornecem muita energia, sem nutrientes específicos. A evidência científica sobre a relação entre a ingestão de açúcares livres e peso corporal é baixa e moderada, já com a cárie dentária é muito baixa e moderada a qualidade da evidência. O excesso de peso corporal associado à ingestão de açúcares livres resulta em excesso de ingestão calórica”.

A recomendação para limitar a ingestão de açúcares livres para menos de 10% do total de ingestão de energia é baseada na evidência de qualidade moderada de estudos observacionais de cárie dentária.

“Já a recomendação, para limitar ainda mais a ingestão de açúcares livres para menos de 5% de ingestão total de energia é baseada em evidências de qualidade muito baixa, a partir de estudos ecológicos, em que a relação dose-resposta positiva entre admissão açúcares livres e cárie dentária foi observada a ingestão de açúcares livre inferior a 5% de consumo total de energia”, finaliza a especialista em Odontologia em Saúde Coletiva.

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