Câncer de boca em pacientes jovens: uma realidade

jovem triste

Segundo dados da International Agency for Research on Cancer (IARC), já se estimava, em 2008, que o câncer de lábio e cavidade oral seria responsável por 263.020 novos casos de câncer, ocasionando 127.654 mortes, com uma prevalência mundial acumulada em cinco anos de 610.656 indivíduos.

As predições para 2030 indicam 433.090 novos casos, com 215.644 mortes por tumores malignos nesses subsítios anatômicos. O câncer de boca e de orofaringe ocupa o 11º lugar entre os tipos de câncer mais comuns em todo o mundo, sendo que o Brasil possui uma das mais altas incidências.

O carcinoma de células escamosas (CCE) bucal é o tipo histológico mais encontrado (90 a 95%), principalmente em população de baixa renda, sendo 90% dos casos de pacientes com idade superior a 45 anos. O sítio intraoral mais comumente acometido pelo CCE é a língua (50% dos casos). O assoalho de boca é afetado em 35% dos casos. Os demais sítios de acometimento – em ordem decrescente de frequência – são gengiva, mucosa jugal, mucosa labial e palato duro. Destaca-se que tumores que ocorrem nessas diferentes localidades apresentam comportamentos diferentes, de modo que os localizados no lábio inferior exibem os melhores prognósticos.

Não há um agente ou um fator causador isolado claramente definido. Tanto fatores extrínsecos quanto intrínsecos podem estar em atividade, caracterizando sua etiologia multifatorial. Dentre os principais fatores extrínsecos têm-se o fumo de tabaco, o álcool e irradiação.

A morbidade do fumo em suas diversas formas é bem conhecida, e o álcool interage com o tabaco no desenvolvimento do câncer bucal, cujos efeitos sinérgicos já foram demonstrados. A radiação solar, particularmente os raios ultravioletas, apresentam-se como principal responsável pelos carcinomas de pele.

Os pacientes jovens respondem por aproximadamente 6% de todos os cânceres bucais. Embora as taxas de CCE de cabeça e pescoço permaneçam estáveis, o aumento de casos em paciente adultos jovens vem sendo apontado em muitas cidades do mundo. De acordo com dados da literatura, tem sido sugerido que o CCE bucal em pacientes adultos jovens seja uma doença distinta daquela que ocorre em pacientes mais velhos, com etiologia e progressão clínica particulares.

Pesquisas sobre a tendência da incidência de câncer de cabeça e pescoço em jovens norte-americanos, entre 1973 e 1997, com especial análise para os tumores de língua, observaram que dentre os 63.409 pacientes registrados com esse perfil, 3339 são jovens com até 40 anos. Destacou-se que a incidência de tumores de cabeça e pescoço permaneceu estável entre os períodos de 1973-1984 e 1985-1997. Por outro lado, constataram que o câncer de língua em jovens com idade inferior a 40 anos aumentou aproximadamente 60% durante o mesmo período.

Embora alguns relatos afirmem que pacientes adultos jovens não apresentam o tabagismo e o etilismo como fatores de risco associados, ainda há controvérsias. Por essa razão, estudos têm investigado outros fatores de risco que possam estar associados ao câncer bucal nesse grupo de pacientes, como deficiência imunológica, fatores nutricionais, fatores genéticos e a participação de agentes microbiológicos, como o HPV.

Evidências que reforçam a ideia da predisposição genética incluem risco aumentado de CCE pacientes jovens e de pacientes sem história de exposição à agentes carcinogênicos conhecidos. Nesse sentido, estudos moleculares têm-se concentrado em investigações de alterações no DNA específicas das células tumorais desses pacientes mais jovens, porém ainda não estão completamente estabelecidas quais alterações genéticas estão envolvidas na transformação ou progressão desses.

Avanços no entendimento dos mecanismos de desenvolvimento do carcinoma de células escamosas bucal têm resultado no aumento do número de trabalhos que investigam possíveis biomarcadores, que poderiam ser utilizados para predizer o comportamento dessa doença. Estudos para a determinação desses marcadores são importantes para identificar pacientes de alto risco, que necessitam de tratamentos complementares agressivos após a remoção cirúrgica de seus tumores. Além disso, podem predizer o prognóstico e indicar resposta ao tratamento.

O câncer de boca tem etiopatogenia multifatorial, e o estudo de suas variáveis, isoladamente, como idade, sítio e alterações moleculares específicas deve ser aplicado com profundidade.

Em pouco tempo, os conhecimentos em Oncologia, adquiridos pela aplicação de tecnologia molecular, permitirão planejar a terapêutica mais apropriada para cada um dos múltiplos tipos de CCE de cabeça e pescoço.


rhayany_lindenblattRhayany Lindenblatt Ribeiro
Cirurgiã-dentista. Especialista em Estomatologia. Doutora e mestre em Patologia Bucal. Habilitada em Laserterapia. 1º Ten Dent Adjunto da Clínica de Semiologia da Odontoclínica Central do Exército.

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