Tratamento odontológico ao paciente com depressão

depressão

Por: Vanessa Navarro

A depressão é uma doença psiquiátrica, crônica e recorrente, que produz uma variável alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como a distúrbios do sono e do apetite. O diagnóstico inicial é realizado por meio de um exame físico e entrevista, feitos por um médico ou psiquiatra.

De acordo com o cirurgião-dentista Rafael Celestino Colombo de Souza, os critérios atuais utilizados para o diagnóstico e classificação dos estados depressivos se encontram no “Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos (DSM-V)”, embora exista uma série de escalas validadas que podem diagnosticar esta condição. “É sempre importante que seja realizado o diagnóstico diferencial desta condição”.

A prevalência de depressão distribui-se de maneira desigual na população. O especialista enfatiza que a doença é mais comum entre as mulheres (2:1), os mais jovens, os mais desprivilegiados economicamente e os que vivem sem companheiro/a.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão afeta cerca de 340 milhões de pessoas em todo o mundo, gerando prejuízo funcional e altas taxas de morbidade e mortalidade. É atualmente a principal causa de incapacitação, ocupando o quarto lugar entre as 10 principais causas de patologias. No Brasil, de 15 a 25% das pessoas apresentam ou apresentaram pelo menos um episódio depressivo ao longo da vida.

Diagnóstico da depressão

Rafael Celestino Colombo de Souza, que atua principalmente nas áreas Diagnóstico Bucal, Síndromologia e Odontologia Hospitalar, explica que os critérios diagnósticos para depressão, de acordo com o DSM-V, são:

A. Cinco ou mais dos sintomas seguintes presentes por pelo menos duas semanas e que representam mudanças no funcionamento prévio do indivíduo; pelo menos um dos sintomas é: humor deprimido ou perda de interesse ou prazer.

  1. Humor deprimido na maioria dos dias, quase todos os dias, por observação subjetiva ou realizada por terceiros.
  2. Acentuada diminuição do prazer ou interesse em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias.
  3. Perda ou ganho de peso acentuado sem estar em dieta ou aumento ou diminuição de apetite, quase todos os dias.
  4. Insônia ou hipersônia quase todos os dias.
  5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias.
  6. Fadiga e perda de energia quase todos os dias.
  7. Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada, quase todos os dias.
  8. Capacidade diminuída de pensar ou se concentrar ou indecisão, quase todos os dias.
  9. Pensamentos de morte recorrentes, ideação suicida recorrente sem um plano específico, ou tentativa de suicídio ou plano específico de cometer suicídio.

B. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

C. Os sintomas não se devem aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou outra condição médica.

D. A ocorrência de episódio depressivo maior não é explicada por transtorno esquizoafetivo, esquizofrenia, transtorno delirante ou outro transtorno especificado ou não do espectro esquizofrênico e outros transtornos psicóticos.

E. Não houve nenhum episódio de mania ou hipomania anterior.

A depressão no consultório odontológico

O especialista alerta que a primeira coisa que o cirurgião-dentista ou qualquer outro profissional da saúde deve saber é que o paciente depressivo não fica deprimido por opção. “Há muito sofrimento nesse estado, trazendo perdas importantes em sua vida. A falta de interesse generalizada afeta o autocuidado e até mesmo a negligência do tratamento odontológico necessário. É necessário que o profissional conheça seu paciente e seus familiares, mantenha contato com médico ou terapeuta que o assiste, para que assim lance mão de estratégias para o cuidado odontológico”.

A ocorrência de um um sentimento de desprezo ou desinteresse sobre o autocuidado pode resultar na higiene bucal precária, na deficiência nutricional e na fragilidade física.

Rafael Celestino Colombo de Souza explica que a capacidade reduzida de autocuidado gera um aumento no índice de placa e o consequente aparecimento de cárie e doença periodontal. “Muitas vezes, são os familiares e amigos que encaminham o paciente com depressão ao consultório odontológico, pois a aceitabilidade para o tratamento odontológico é pequena e difícil de se obter. A autoestima diminuída, a insatisfação e o desânimo em relação à vida e ao futuro também podem refletir na baixa adesão”.

É necessário levar em consideração que pacientes depressivos podem ter prejuízos seletivos na memória ou na retenção de conhecimentos, o que pode ser um desafio para o dentista no momento de informar e educar sobre saúde bucal. “Além disso, existe uma relação bidirecional entre depressão e doenças crônicas, uma vez que pessoas com depressão podem apresentar alterações biológicas com potencial de aumentar os riscos de desenvolver doenças crônicas, como alterações hormonais ou imunológicas. Outrora, doentes crônicos podem apresentar limitações em sua vida diária, que aumentam as chances de terem depressão. Independente da direção em que caminha, a conjugação de ambas implica pior gerenciamento dos agravos e pior desfecho. O tratamento realizado com antidepressivos também pode impactar a saúde bucal”, expõe o especialista.

É preciso frisar que os antidepressivos comumente utilizados no tratamento de depressão podem causar danos à saúde bucal do paciente. “Os psicofármacos são medicações amplamente utilizadas no tratamento do paciente com depressão, e o seu consumo tem crescido nos últimos anos. A primeira classe de antidepressivos apresentavam diversos efeitos colaterais ao usuário, porém isso diminuiu com o surgimento de medicamentos novos e mais elaborados”, enfatiza o cirurgião-dentista, que também é especialista em Implantodontia e Reabilitação Oral, mestre em Diagnóstico Bucal/Semiologia e doutor em Ciências Odontológicas com concentração em Odontopediatria.

Em relação à saúde bucal, muitos antidepressivos têm como efeito colateral a redução do fluxo salivar, devido aos efeitos anticolinérgicos. A hipossalivação nestes pacientes pode incrementar a incidência de cáries, infecções e fissuras nos cantos dos lábios.

“Outro ponto importante e que devemos considerar é a interação medicamentosa entre os psicofármacos e medicamentos utilizados na clínica odontológica, como os anestésicos. O uso de anestésicos locais com vasoconstritores simpatomiméticos, entre eles a adrenalina, a noradrenalina e a fenilefrina, podem potencializar os efeitos colaterais dos antidepressivos, principalmente tricíclicos e inibidores da MAO, sobre o sistema cardiovascular”, previne o cirurgião-dentista. “Os antidepressivos tricíclicos também agregam, como seus efeitos colaterais, a visão turva, taquicardia e palpitação, em função das suas ações antimuscarínicas; fraqueza, sedação, aumento do apetite e fadiga, por bloqueio dos receptores histaminérgicos H1; e ainda hipotensão ortostática, por impedirem receptores adrenérgicos α1. O uso dos ISRS pode alterar a coagulação do paciente, com aumento no tempo de sangramento, pois há uma maior concentração de serotonina na fenda sináptica e uma menor concentração disponível às plaquetas que a armazenam”, completa.

Atendimento humanizado

A promoção da assistência humanizada e especializada a esses pacientes pode ser a chave para o sucesso do atendimento odontológico.

A conduta e a abordagem de pacientes com depressão são muito delicadas, principalmente quando emoções muito intensas, como a tristeza, melancolia, frustração e raiva, são expressadas. “Como profissional da área da saúde, é importante lembrar que isso faz parte de uma condição, não devendo ser relacionado a uma opinião pessoal. É preciso ter cuidado para não tentar convencer a pessoa deprimida que aquilo que ela sente não existe”, adverte Rafael Celestino Colombo de Souza.

Para o especialista, um tratamento humanizado aumenta a adesão do paciente ao tratamento. A busca por essa prática deve ser constante, e o aprendizado é obtido a cada experiência. “Receba o paciente na sala de espera, mostre empatia, fale o seu nome, seja um bom ouvido e, quando na dúvida sobre o que fazer ou dizer, pergunte sempre: ‘como posso ajudar?’”.

Ainda neste contexto, é importante enfatizar que este cuidado deve ser estendido à equipe multidisciplinar, que tem um papel fundamental no cuidado contínuo desta condição.

Cuidando do paciente com depressão 

O cirurgião-dentista Rafael Celestino Colombo de Souza apresenta algumas dicas valiosas para um atendimento eficiente e eficaz junto ao paciente com depressão.

  • Quando identificar sinais de depressão ou diante do autorrelato do paciente, realize contato com algum familiar e/ou médico.
  • Considere o momento oportuno do tratamento em razão do estado do paciente.
  • Reserve uma parte do tempo da consulta para ouvir o que o paciente pode relatar sobre sua situação no momento.
  • Anote medicamentos de uso contínuo no prontuário e verifique as possíveis interações medicamentosas e efeitos colaterais.
  • A comunicação com o paciente deve ser realizada por via oral e escrita, com cópia anexada ao prontuário.
  • Crie estratégias para o atendimento clínico, como dar prioridade para as necessidades que o paciente apontar, isso pode aumentar a autoestima e o bem-estar, favorecendo a adesão ao tratamento.
  • Considere a saúde emocional e psicológica diante da escuta sensível dos seus sintomas, ou seja, sinais e sintomas não condizentes com a situação clínica.

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