O que é um idoso fragilizado?

idoso

O progressivo crescimento da população “mais idosa” (acima de 80 anos de idade) tem sido observado em todos os países. Esse aumento da expectativa de vida pode elevar a incidência de enfermidades crônicas não transmissíveis e incapacitantes no idoso, com possíveis alterações na dependência física, cognitiva e emocional. Essas alterações podem comprometer a capacidade de autonomia do indivíduo, gerando elevada demanda de cuidados permanentes por parte de familiares e cuidadores¹.

A saúde bucal é bem reconhecida como parte integrante da saúde geral e um dos determinantes da qualidade de vida do indivíduo². Embora tenha havido uma redução nas taxas de perda dentária em pessoas idosas no mundo, a prevalência de edentulismo permanece alta nessa população³. O comprometimento da saúde bucal tem sido relacionado com o desenvolvimento de incapacidades, redução da força de apreensão, menor ingestão de nutrientes e perda de peso. Esses fatores são associados com a patogênese da fragilidade4.

A fragilidade é um termo usado para designar uma síndrome multidimensional que envolve a perda de reservas (energia, capacidade física, cognição e saúde), originando a vulnerabilidade, e está diretamente relacionada ao aumento das taxas de mortalidade5,6.

Embora existam evidências de que este seja um processo dinâmico e instável, caracterizado por frequentes transições entre diferentes estágios de fragilidade (não fágil, pré-frágil e frágil), é importante identificar os fatores associados, com o intuito de prevenir a sua ocorrência ou de ajudar a recuperação das pessoas7. Esses aspectos multidimensionais, heterogêneos e instáveis da fragilidade possibilitam a diferenciação desta com a incapacidade (disability) ou com o processo natural do envelhecimento8.  Ainda assim, ela pode estar associada a desfechos negativos de saúde, tais como declínio funcional e dependência, que podem levar o idoso a precisar de um cuidador4.

A síndrome da fragilidade é identificada pela presença de, ao menos, três das seguintes cinco características9:

  1. Perda de peso: autorrelato de perda de peso não intencional de mais de 3 kg nos últimos três meses.
  2. Fraqueza: autorrelato da diminuição da força de apreensão de objetos.
  3. Lentidão: dificuldade de caminhar cerca de três metros.
  4. Cansaço: autorrelato, de ao menos, uma quantidade moderada de tempo (três dias ou mais), sentindo esgotamento e cansaço na semana anterior.
  5. Baixo nível de atividade física: autorrelato, de ao menos, uma quantidade pequena (menor ou igual a um dia) ou inexistente de tempo, por semana, de realização de atividades físicas (andar, correr, nadar, exercitar, etc).

O número dessas características presentes no indivíduo pode classificar os estágios de fragilidade em: frágil, quando há a presença de três características); pré-frágil, quando é possível observar uma ou duas características; e não frágil, quando não existem tais características9.

A fragilidade nos idosos envolve interações complexas de fatores biológicos, psicológicos e sociais que interagem entre si e culminam com um estado de maior vulnerabilidade, que passa a ter a aparência de idoso frágil, levando a situações de dependência7. O fato de depender de outra pessoa para realizar as atividades básicas de vida diária está intimamente relacionado à fragilidade5.

A mastigação é muito importante para a melhoria e preservação do estado geral de saúde. A habilidade mastigatória em idosos pode influenciar a condição nutricional, a saúde física geral e as atividades de vida diária, prejudicando a qualidade de vida10. A força da mastigação em idosos fragilizados começa a diminuir antes da perda dos dentes, iniciando nos primeiros estágios de fragilidade4.

As pessoas com poucos dentes tendem a evitar o consumo de frutas, legumes e carnes, que são uma importante fonte alimentar de proteínas, vitaminas e fibras, por apresentarem uma consistência mais dura, exigindo um maior comprometimento e eficiência da mastigação. A ingestão inadequada de nutrientes e proteínas e os baixos níveis séricos de beta caroteno têm sido relacionados com o desenvolvimento de fragilidade. A perda de peso, que é um dos componentes da síndrome da fragilidade, também tem sido associada com dente óssea4-7.

A fraqueza muscular também pode reduzir a capacidade de apreensão de objetos, podendo levar à dificuldade de uso de escovas e outros acessórios de limpeza dos dentes, reduzindo a higienização bucal e predispondo às doenças periodontais em idosos fragilizados dentados¹¹. Dessa forma, o desafio constante para o profissional de saúde bucal será identificar os estados de fragilidade e monitorar as condições de saúde bucal em idosos, minimizando seus efeitos na saúde geral e na qualidade de vida dos pacientes.

Referências bibliográficas

  1. Petersen PE, Kjoller M, Christensen LB, Krustrup U. Changing dentate status of adults, use of dental health services, and achievement of national dental health goals in Denmark by year 2000. Public Health Dentistry 2004; 64:127–135.
  2. Holm-Pedersen P, Schultz-Larsen K, Christiansen N et al. Tooth loss and subsequent disability and mortality in old age. J Am Geriatr Soc 2008; 56:429-35.
  3. Petersen PE, Yamamoto T. Improving the oral health of older people: The approach of the WHO Global Oral Health Programme. Community Dent Oral Epidemiol 2005; 33:81-92.
  4. Andrade FB, Lebrão ML, Santos JLF, Duarte YAO. Relationship between oral health and frailty in community-dwelling elderly individuals in Brazil. JAGS 2013; 61: 809-14.
  5. Buchman AS, Wilson RS, Bienias JL et al. Change in frailty and risk of death in older persons. Exp Aging Res 2009; 35: 61–82.
  6. Masel MC, Ostir GV, Ottenbacher KJ. Frailty, mortality, and healthrelated quality of life in older Mexican Americans. J Am Geriatr Soc 2010; 58:2149–2153.
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  8. Ferrucci L, Guralnik JM, Studenski S, Fried LP, Cutler GB Jr, Walston JD, et al. Designing randomized, controlled trials aimed at preventing or delaying functional decline and disability in frail, older persons: a consensus report. J Am Geriatr Soc. 2004; 52(4): 625-34.
  9. Fabrício-Wehbe SC, Schiaveto FV, Vendrusculo TR, Haas VJ, Dantas RA, Rodrigues RA. Cross-cultural adaptation and validity of the “Edmonton Frail Scale – EFS” in a Brazilian elderly sample. Rev Latinoam Enferm. 2009; 17(6):1043-9.
  10.  Miura H, Watanabe S, Isogai E, Miura K. Comparison of maximum bite force and dentate status between healthy and frail elderly persons. J Oral Rehabil. 2001; 28: 592-95.
  11.  Avlund K, Schultz-Larsen K, Christiansen N et al. Number of teeth and fatigue in older adults. J Am Geriatr Soc 2011; 59: 1459-64.

 



eduardo_heblingEduardo Hebling 

Cirurgião-dentista. Especialista em Odontogeriatria. Professor Associado da Faculdade de Odontologia de Piracicaba – UNICAMP. Coordenador do Curso de Especialização em Odontogeriatria da FOP – UNICAMP. 

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