A nutrição como aliada da saúde bucal

Por: Vanessa Navarro

Sabendo-se que a boca é o ponto inicial de contato com os nutrientes consumidos, fica claro que o alimento não interfere somente na saúde geral, mas também na saúde dos dentes e gengivas.

Há muito tempo, no século XIX, o cientista americano W.D. Miller foi o primeiro autor a apontar o consumo de açúcares como fator causal da cárie.

Tempos depois, na década de 1960, Paul Keyes, dentista e pesquisador, sedimentou o conceito da tríade “microrganismo, hospedeiro e dieta”. A partir de então, de acordo com as informações do cirurgião-dentista Érico Castaldin Fraga Moreira, doutor em Ciências Odontológicas e sócio da CRONUS – Clínica de Reabilitação Oral, Nutrição e Saúde, os trabalhos foram crescendo progressivamente, em quantidade e abordagem, correlacionando micro e macronutrientes com a formação e manutenção dos tecidos orais e na manutenção da saúde.

Prof. Dr. Érico explica que existe uma forte relação entre nutrição e saúde oral. Uma dieta equilibrada está correlacionada com o estado de saúde oral (na manutenção da saúde dos tecidos periodontais e elementos dentários), bem como na qualidade e quantidade de saliva. “O inverso também é verdadeiro. Indivíduos com doenças orais, como ausências dentárias, comprometimento periodontal, xerostomia, lesões com sintomatologia dolorosa possuem uma pior ingestão alimentar. Assim, pode-se afirmar que a nutrição afeta a saúde bucal, e a saúde bucal afeta a nutrição”.

A dieta influencia a cavidade oral, seja na sua formação, ainda em período embrionário, ou durante toda a vida do indivíduo.

Durante a formação, uma deficiência de vitaminas e minerais pode impactar em deficiência no crescimento mandibular, na formação dentária, bem como na baixa ingestão proteica, pode levar à atrofia das papilas gustativas, alteração na cementogênese e dentinogênese e hipoplasia de esmalte. Já o consumo inadequado de gorduras pode causar degeneração do parênquima glandular, além da hipossalivação da parótida.

De acordo com o profissional de saúde bucal, algumas doenças dentárias estão diretamente relacionadas ao consumo alimentar. “Como é o caso da cárie, que requer a tríade ‘presença de bactéria, presença do açúcar ou de outros carboidratos fermentáveis e da secreção salivar’. Assim, os metabólitos da transformação dos açúcares pelas bactérias promove a desmineralização dos tecidos mineralizados do dente (esmalte e dentina), bem como do componente proteico dos dentes, resultando na sua deterioração”.

O clássico estudo com os inuítes, membros da nação indígena esquimó do Alasca, corrobora a tese de que o alto consumo de carboidratos aumenta a incidência de cáries dentárias, visto a baixa incidência de cáries nessa população. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda baixo consumo de açúcar, até 5% do consumo total diário, em virtude da forte associação entre este alimento e a presença de cáries. De forma contrária, uma boa alimentação também é capaz de prevenir a formação de cáries. Entre os alimentos, podemos indicar o consumo de queijos com propriedades cariostáticas; de leites, por conter cálcio, fósforo e caseína; o alto consumo de fibras, castanhas e gomas de mascar sem açúcar, por estimularem a salivação; além do chá preto, por aumentar a concentração de flúor”, explica o também mestre em Prótese Dentária.

Uma alimentação com quantidades adequadas de vitamina A também exerce um importante fator de proteção a formação das cáries, visto que tal vitamina participa da formação das glicoproteínas/mucinas.

“Outra condição influenciada pelo estado nutricional é a formação do esmalte dentário, este dependente de vitaminas A e D e do consumo energético e proteico. Já o baixo consumo de ácido fólico, vitamina C e cálcio podem agravar as doenças periodontais”, enfatiza o especialista.

Consumo de açúcares para adultos e crianças

A Organização Mundial de Saúde publicou recentemente uma nova diretriz sobre consumo de açúcares para adultos e crianças. De acordo com a recomendação da organização, o consumo de açúcar não deve passar de 50 gramas por dia.

Dr. Érico explica que a OMS reduziu pela metade a recomendação para o consumo de açúcares, sendo assim, o consumo deverá ser de, no máximo, 5% do valor energético total consumido no dia. Fazem parte desta nova recomendação o consumo de açúcares adicionados às preparações, na indústria e os naturalmente presentes nos alimentos, como o mel e os sucos de frutas. “A nova recomendação visa o controle de dois grandes problemas de Saúde Pública, são eles o avanço da obesidade e do sobrepeso e a redução no aparecimento da cárie dentária, que além da cavitação dentária, em seu último grau, causa a perda do elemento dentário. A cárie também causa dor, ansiedade, limitação funcional, incluindo a má frequência e desempenho escolar em crianças, e desvantagem social. Ademais, é preciso considerar que o tratamento das doenças bucais é caro, seja para o indivíduo ou para o Estado, logo, a prevenção é uma conduta a ser adotada”.

Os profissionais de saúde, em especial, os cirurgiões-dentistas, precisam destinar uma parte de seus atendimentos à educação em saúde bucal, abordando temas como uma boa e correta higienização, o consumo de bebidas carbonatadas, que promovem a erosão dentária por meio da desmineralização da superfície dentária, além do alto consumo, principalmente entre os adolescentes e jovens adultos, de bebidas isotônicas e energéticas, que possuem elevado teor de açúcar e levam a fragilização do esmalte dentário, devido ao seu pH ácido. “A quantidade de açúcar invisível presente nas bebidas açucaradas também deverá ser discutida com os pacientes, assim, é de fundamental importância a discussão sobre os benefícios da adoção de uma dieta saudável. Neste sentido, o atendimento multiprofissional entre dentistas e nutricionistas, principalmente para indivíduos com episódios de cárie recorrentes, é muito promissor”, esclarece o doutor em Ciências Odontológicas, que defende que outro ponto que o cirurgião-dentista pode abordar nas consultas é que, embora no Brasil, por medida de Saúde Pública, a água da rede de saneamento básico seja fluoretada, as águas minerais não são. Também, embora a exposição ao flúor reduza a cárie dentária, retardando o processo de cavitação, a redução de consumo de açúcares também é considerada outro importante fator protetor ao aparecimento de cáries”.

Pesquisa Nacional de Saúde

A última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em parceria com o Ministério da Saúde, aponta dados preocupantes em relação à saúde da criança, que, seguindo os passos da vida moderna de pais e familiares, alimenta-se de maneira inadequada. Tal pesquisa aponta que três em cada 10 bebês brasileiros tomam refrigerante antes dos dois anos, e esse consumo frenético de alimentos industrializados pode afetar na saúde bucal das crianças e de seus pais.

O cirurgião-dentista Érico Castaldin Fraga Moreira explica que o consumo de alimento de alta densidade energética, com alto teor de gordura e açúcares, no Brasil, inicia-se cada vez mais cedo. “Dados da última Pesquisa Nacional de Saúde apontam que praticamente um terço das crianças menores de dois anos consomem refrigerantes ou sucos artificiais regularmente. Mais de 60% consomem alimentos de alta adesividade, como biscoitos, bolachas e bolos, que também são fontes muito significativas de açúcar e gordura. Outro consumo alarmante por essa faixa etária é o de balas, pirulitos e chicletes, que permitem a entrada lentificada de açúcar”, lamenta o profissional da saúde bucal.

A alimentação de pobre qualidade nutricional favorece o surgimento de cáries, seja pela presença de açúcares, ou pela alteração do pH bucal, ocasionado pelo consumo de refrigerantes e bebidas carbonatadas. Também é preciso considerar que o consumo de refrigerante ocorre, muitas vezes, em substituição ao consumo de água, o que pode propiciar uma hipossalivação, além de promover o consumo frequente de açúcar, o que por sua vez, impede o efeito tampão. “Vale lembrar que este padrão alimentar só piora com aumento da idade. Sabe-se que crianças mais velhas ingerem ainda mais refrigerantes e consomem com mais frequência alimentos industrializados, como salgadinhos empacotados e biscoitos, alimentos estes que não exigem muito da mastigação e de alta aderência à superfície dentária”, elucida o mestre em Prótese Dentária. “Diante deste cenário, são necessárias ações conjuntas que envolvam a família, a escola, a comunidade e a indústria alimentícia, para promover hábitos de vida saudáveis, assim como os cirurgiões-dentistas precisam continuar enfatizando a promoção de alimentação saudável e a prevenção da perda dentária, garantindo, mais qualidade de vida”, completa.

Inimigos da saúde bucal

Dr. Érico elucida que, embora a patogênese da doença periodontal envolva bactérias e a resposta do hospedeiro a estes subprodutos de bactérias (toxinas e enzimas), local, sistêmica e fatores comportamentais influenciam a gravidade da doença e progressão. “Influências sistêmicas incluem diabetes, estresse, doenças cardiovasculares, osteoporose, o estado imunológico do hospedeiro e patógenos associados à doença periodontal na flora subgengival. Outros fatores de risco comportamentais, incluem a má higiene bucal, uso de tabaco e a dieta”.

As deficiências nutricionais predispõem o indivíduo a uma maior susceptibilidade às doenças periodontais, devido às alterações no sistema imune, que é modulado por diversos nutrientes.

“Outra condição que pode agravar o consumo de uma dieta inadequada é o uso de próteses mal ajustadas, visto que muitas vezes propicia a mudança nos hábitos alimentares, como a adoção de dietas mais pastosas e macias e a diminuição do consumo de alimentos ricos em fibras, tais como pão, frutas e legumes”, alerta o cirurgião-dentista.

A perda da dentição natural também tem influência sobre os diversos aspectos do organismo, dentre os quais o aspecto estético, a pronúncia, a digestão, e principalmente, a mastigação. “Lembrando que a mastigação tem que ser bilateral, promovendo o ciclo mastigatório. Em paciente dentado ocorre a oclusão mutuamente protegida, com controle da força da mordida. Em posições excursivas ocorre o toque dos dentes anteriores, e em máxima intercuspidação ocorre o toque dos posteriores. Já em indivíduos portadores de prótese total ocorre um decréscimo na capacidade mastigatória – perda da propriocepção – e a oclusão é bilateral e simultânea – abertura e fechamento”, explana o sócio da CRONUS – Clínica de Reabilitação Oral, Nutrição e Saúde.

É preciso dar a devida importância aos esforços colaborativos entre profissionais da Odontologia, Nutrição e Medicina, para garantir a assistência adequada à saúde da população.

O cirurgião-dentista Érico Castaldin Fraga Moreira aponta que a literatura sugere que o treinamento de nutrição de dentistas e formação em saúde oral de nutricionistas é limitado. “Já está mais do que sedimentado que a colaboração entre os profissionais da Nutrição e da Odontologia é recomendada para promoção de saúde bucal e sistêmica. A relação entre saúde e doença oral e nutricional requer a atenção e consideração de todos os profissionais de saúde”.

Alimentos aliados da saúde bucal

alimentos

Pesquisas apontam que alguns alimentos são excelentes aliados da saúde bucal. A água, por ser o principal componente do fluxo salivar e veículo da amilase salivar, além de favorecer o tamponamento do pH, contribui para mais aderência das próteses mucosossuportadas.

“Além da água, leite e derivados, alimentos ricos em proteína, alimentos fontes de vitamina C e vitamina E, ácidos graxos ômega 3 e os alimentos fontes de zinco e cobre são grandes aliados da saúde bucal”, explica o especialista.

O cirurgião-dentista pode e deve auxiliar o paciente a ter uma vida mais saudável. De acordo com o Dr. Érico, algumas orientações podem fazer toda a diferença na vida e na saúde do paciente.

  • Fale sobre a importância da redução no consumo de alimentos com alto teor de açúcares.
  • Encoraje o consumo de frutas, legumes e verduras (efeito das fibras/mastigação).
  • Fale sobre o consumo de gomas de mascar e balas sem adição de açúcar (efeito do xilitol/mastigação).
  • Indique o consumo de alimentos ricos em proteína, como carnes, ovos, queijos, peixe e feijões (ausência de substrato cariogênico/pH).
  • Alerte sobre os benefícios da ingestão de leite (lactose /cálcio e fósforo).
  • Fale sobre os benefícios dos cereais integrais (efeito mastigação).
  • Aponte a importância de intervalar o consumo de bebidas e alimentos (efeito remineralização/des-remineralização).
  • Informe sobre os benefícios do consumo de alimentos crus e/ou ricos em fibras (efeito mastigação).
  • Incentive o consumo da água em pequenas quantidades, várias vezes ao dia, entre as refeições (efeito salivação).

“Exerça a Odontologia curativa, sempre buscando a excelência, de forma a manter a função mastigatória eficiente por meio de estabelecimento dos critérios de oclusão e anatomia corretos, e lembre-se que é muito importante ter consciência da necessidade de trabalhar de forma multidisciplinar, encaminhando o paciente aos profissionais de Nutrição, Medicina e Fonoaudiologia, quando necessário”, finaliza o cirurgião-dentista.

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