Fique atento à iluminação do seu consultório

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João Gabriel P. Almeida, engenheiro eletricista, professor e coordenador acadêmico de diversos cursos de pós-graduação na área de iluminação, fala sobre a importância de realizar um projeto de iluminação apropriado para o ambiente de trabalho do profissional de saúde bucal.

Por: Vanessa Navarro

Local Odonto – Como iluminação inadequada dentro do consultório odontológico pode afetar o trabalho e saúde do cirurgião-dentista?
João Gabriel P. Almeida – Uma iluminação inadequada dentro do consultório odontológico pode afetar o trabalho e a produtividade do cirurgião-dentista e dos demais profissionais envolvidos na tarefa.
Uma iluminação inadequada pode causar estresse prematuro, aumento da tensão muscular, aumento dos batimentos cardíacos, dores de cabeça, refletindo, como um todo, na diminuição da produtividade e na qualidade do trabalho executado. A fadiga excessiva ao final do expediente, e eventualmente, até irritações e doenças de pele podem ser alguns dos sintomas da uma iluminação artificial mal projetada.
Um cuidado especial também deve ser tomado com a iluminação da sala de espera. É nesse espaço que o seu paciente irá ter o primeiro contato com o seu consultório, e aqui vale aquela máxima: a primeira impressão é a que fica.
Ou seja, uma iluminação adequada pode melhorar a sua produtividade, a qualidade da sua atividade, produzir um espaço mais propício ao desenvolvimento de suas atividades e até aumentar o seu lucro no final do mês.
Normas nacionais e internacionais estabelecem alguns requisitos de iluminação para diversos ambientes de trabalho, que irão por sua vez garantir que as atividades desenvolvidas nesses espaços sejam executadas de maneira eficaz, com segurança, precisão, rapidez e eficiência, e consumindo o mínimo de energia possível. Os consultórios odontológicos também estão contemplados nessas normas.
O cirurgião-dentista trabalha sob um gradiente de iluminação muito grande, ou seja, ele tem uma área muito iluminada sob o foco de uma luz intensão e uma área no entorno, às vezes, mal iluminada. Também este fator é motivo de desconforto, cansaço e estresse ao longo do dia.
Outro ponto importante a se lembrar aqui é que com o passar dos anos, nossa visão vai perdendo a capacidade de enxergar com a mesma acuidade e precisão.


Local Odonto – 
Qual é a importância da iluminação adequada para o consultório odontológico?
João Gabriel P. Almeida – Em toda as atividades profissionais, e mais especificamente na prática odontológica, as características ergométricas dos equipamentos (cadeiras odontológicas) e o próprio ambiente de trabalho (conforto lumínico, conforto acústico, conforto térmico e design) têm um papel significativo na produtividade dos profissionais que utilizam esse espaço.
O profissional cirurgião-dentista deve ser capaz de enxergar bem a região que está sendo tratada, o que significa que os níveis de iluminância na área de trabalho devem ser os adequados para desenvolvimento de suas atividades.
Além da quantidade de luz, outra preocupação deve ser com a qualidade da luz. Para o perfeito desenvolvimento de suas atividades é necessária uma iluminação confortável, com baixo nível de ofuscamento (baixo UGR) e com o uso de uma temperatura de cor adequada.
Podemos dizer que a iluminação adequada é de fundamental importância para o desenvolvimento da prática profissional de um cirurgião-dentista.


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Para alcançar uma boa iluminação é preciso, além de luzes adequadas, o conhecimento sobre a intensidade de luz natural, a disposição de móveis, cores de pisos e paredes e objetos, como vidros ou espelhos mal posicionados. Como todos esses fatores podem influenciar negativamente na iluminação adequada para um consultório odontológico
João Gabriel P. Almeida – Uma boa iluminação deve começar pela sala de espera. A iluminação desse espaço deve ser responsável por criar uma atmosfera de relaxamento e aconchego, fazendo com que o paciente se sinta confortável e tranquilo.
Uma decoração adequada traz beleza e estética ao ambiente clínico, proporcionando conforto e bem-estar aos pacientes, contribuindo para criar uma atmosfera de confiança, ajudando a atenuar o medo inerente aos tratamentos odontológicos.
A antessala deve possuir uma iluminação aconchegante e relaxante. A utilização de lâmpadas com temperatura de mais baixas (lâmpadas com 2.700 a 3.000 K) ajuda muito na criação dessa sensação de relaxamento (conforto lumínico). Uma música ambiente e um ar condicionado adequadamente ajustado podem garantir conforto acústico e térmico suficiente para auxiliar a iluminação no processo de relaxamento do paciente.
Quanto a iluminação interna do consultório, é melhor que ela transmita uma ideia de limpeza e asseio. Uma ideia de dinamismo e de qualidade de serviço. Tudo isso pode ser obtido com a utilização de uma iluminação neutra ou fria (de 4.000 a 8.000 K).
Recomenda-se a utilização das cores claras no teto e pisos, e tons pastéis nas paredes, pois, além de auxiliar na eficácia da iluminação artificial, produzem uma ideia de limpeza e asseio, transmitindo ao ambiente uma sensação de calma e tranquilidade.
Usar e abusar da iluminação natural, quando disponível, é também uma boa recomendação para os consultórios.


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 Com a iluminação inadequada, o cirurgião-dentista e a equipe auxiliar podem apresentar queda no rendimento e falta de atenção em função do cansaço e diminuição da qualidade do serviço executado. Como isso pode ser evitado?
João Gabriel P. Almeida – Até bem pouco tempo atrás, quando falávamos de elementos fotossensores existentes no fundo dos nossos olhos, citávamos apenas os cones (RGB – responsáveis pela visão em cores) e os bastonetes (responsáveis pela visão de tons de cinza).
Recentemente descobriu-se um terceiro elemento fotossensor, as células ganglionares. Esse terceiro sensor responde basicamente às radiações na cor azul com comprimento de onda de 410 até 460 nm. Quando estimulado por esta radiação específica, este sensor atua diretamente na parte central do cérebro humano, controlando e reduzindo a produção da melatonina, o hormônio do sono.
Este fenômeno tem como consequência o aumento do estado de alerta, podendo melhorar a performance, o desempenho físico e mental; reduzir a fadiga visual, a distração das pessoas e ainda reduzir erros e acidentes.
Com base nessa descoberta científica, alguns fabricantes desenvolveram uma linha de lâmpadas capaz de emitir luz com tonalidade parecida ao céu azulado de um dia ensolarado, que compreende a radiação azul necessária para influenciar o relógio biológico das pessoas, funcionando como estimulante e aumentando a vitalidade.
As pesquisas médicas sugerem que o uso de uma iluminação adequada em centros médicos, salas de recuperação e enfermarias onde se encontram pacientes em tratamento, podem oferecer alguns benefícios, como redução da ansiedade, retenção da memória e melhorias no sono, reduzindo consequentemente o tempo de internação do paciente. E essas conclusões também podem ser aplicadas aos consultórios odontológicos.


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Quais são as exigências estabelecidas pelas normas brasileiras em relação à iluminação geral do consultório odontológico?
João Gabriel P. Almeida – Primeiramente cabe lembrar que a unidade que mede a quantidade de luz que incide em um ponto (ou uma área) é conhecida como iluminância, “E”, e sua unidade é o lux, ou simplesmente lx.
Normalmente as normas recomendam valores médios mínimos (Emed), ou seja, na média, o menor valor para uma determinada área deve ser aquele apresentado pela respectiva norma.
A recém-publicada norma brasileira ABNT NBR ISSO/CIE 8995-1:2013 Iluminação de ambientes de trabalho (Parte 1: Interior) recomenda os seguintes valores:

  • Iluminação geral: Emed>= 500 lux.
  • Iluminação no paciente: Emed>= 1000 lux.
  • Iluminação na cavidade cirúrgica: Emed>= 5.000 lux.
  • Branqueamento dos dentes: 5.000 lux.

A norma brasileira ainda recomenda valores de ofuscamento (UGR) inferiores a 19 e índice de reprodução de cores (Ra) superiores a 90%.

A iluminação geral, normalmente instalada no teto dos consultórios, será responsável pela iluminação geral e iluminação no campo de trabalho, enquanto os aparelhos de iluminação bucal existentes nas cadeiras odontológicas serão responsáveis pela iluminação da cavidade cirúrgica (ou no campo operatório).


Local Odonto – 
Quais são as opções ideais de iluminação para o consultório odontológico, visando a melhora na qualidade de vida do cirurgião-dentista?
João Gabriel P. Almeida – Visando a melhora na qualidade de vida do cirurgião-dentista, o projeto ideal deve prever, sempre que possível, a presença da luz natural. A presença desse tipo de iluminação é fundamental para que o nosso corpo possa melhor se adaptar aos horários do dia, reduzindo a sensação de cansaço e estresse. Outra vantagem da luz natural é a melhor reprodução de cores, facilitando a identificação de cor mais adequada em uma prótese, por exemplo.
Tendo em vista que a prática odontológica, por si só, já apresenta um elevado nível de fatores que podem levar a doenças ocupacionais, recomendamos que o dentista procure um profissional especialista em iluminação, para garantir que o resultado final será o melhor possível, tanto sob a ótica da quantidade, quanto da qualidade da iluminação.
Hoje as luminárias e lâmpadas de LED são as melhores opções para iluminação de consultórios dentários. Além de serem mais eficientes e possuírem uma vida útil maior, as luminárias e lâmpadas de LED são mais econômicas e, certamente, poderão reduzir a conta de energia de seu consultório.


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Quais são as dicas essenciais sobre iluminação para garantir a saúde e o bem-estar do cirurgião-dentista?
João Gabriel P. Almeida – Apresento algumas dicas para que não exista erros na iluminação do seu consultório.

  • Dica 1 – Use e abuse da iluminação natural, ela é a melhor fonte de luz que você poderá ter em seu consultório, e é gratuita.
    Mas lembre-se: evite a luz natural direta do sol, pois junto com ela você poderá ter alguns inconvenientes causados pelos raios ultravioletas.
  • Dica 2 – Dê preferência paras as fontes de luz de LED, pois além de serem mais eficientes, duram mais e são mais econômicas.
    Mas lembre-se: os LEDs podem ser mais caros no momento inicial, mas, ao longo do tempo, comprovam-se bem mais baratos.
  • Dica 3 – Você pode contratar um arquiteto para fazer o seu projeto de iluminação, mas o melhor mesmo é contratar um profissional especialista em iluminação. Você poderá ter uma despesa inicial um pouco maior, mas o resultado final trará uma grande vantagem para o seu bolso.
    Lembre-se: seu paciente pode fazer um tratamento de clareamento no corredor do shopping, mas fazer esse tratamento em um consultório como o seu será sempre melhor e mais seguro.

entrevistadoJoão Gabriel P. Almeida é engenheiro eletricista. Possui mais de 25 anos de experiência na área da iluminação. É professor e coordenador acadêmico de diversos cursos de pós-graduação na área de iluminação. Trabalhou por mais de 20 anos da CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais. Hoje é proprietário do CEILUX – Centro de Excelência em Iluminação. Conta com um canal no YouTube, onde divulga dicas para elaboração de projetos luminotécnicos.

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O entrevistado João Gabriel P. Almeida agradece aos cirurgiões-dentistas Ygor F. T. Delfino e Cibele Crivelari pela colaboração nesta entrevista.

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