Quanto vale um dente?

dente

Olá, amigos!

Confesso que ao receber o convite da editora Vanessa Navarro para ser colunista de Periodontia do portal Local Odonto, fiquei um pouco preocupado em assumir tal cargo. Acostumado com aulas e palestras, nas quais tenho a interação direta com o público ouvinte e participativo, a escrita me impossibilita a argumentação e contra argumentação, possibilitando que o entendimento seja totalmente controverso ao real conteúdo do que está escrito. Isso porque, um texto depende muito de quem o lê, da forma como lê, e do quanto está habituado ao assunto.

Assim, peço a colaboração de todos os leitores, dando-lhes total liberdade para debatermos os assuntos abordados, estando totalmente aberto à críticas e sugestões, mas sempre mantendo os princípios do embasamento científico, com respeito e com ética, que devemos ter a todos.

Além disso, mesmo antes de aceitar o convite, pedi à editora que minhas colunas tivessem uma liberdade para abordarmos um conteúdo mais filosófico, um pouco menos técnico, com uma abordagem que nos fizessem refletir sobre nossa profissão, tão amada por todos nós.

Assim, gostaria de iniciar essa coluna com o principal questionamento que me vem à cabeça nos dias atuais: “Quanto vale um dente?”.

Não apenas no quesito valor comercial. Quanto valem os nossos dentes? Qual a importância deles para a nossa vida? Qual o significado deles para nós?

Tenho certeza de que todos temos essa real consciência. Nossos dentes estão diretamente relacionados a nossa autoestima. Uma pessoa sem dentes, tem vergonha ao sorrir, não? Além de estarem diretamente relacionados com a nossa saúde sistêmica, visto que diversos estudos que já comprovaram o relacionamento das doenças orais com problemas cardíacos, pneumonias, problemas gestacionais e até de impotência sexual. E não estou nem listando os problemas que são causados diretamente pela ausência de um ou mais dentes, como problemas oclusais e articulares, e indiretamente, problemas gástricos.

Com essa pergunta em mente, deparo-me com uma contradição muito grande. Dada a evolução da Odontologia, como consequência de todo um avanço da Medicina, hoje temos técnicas cada vez mais eficazes para resolvermos diversos tipos de problemas odontológicos, como os implantes para a reposição de dentes faltantes, técnicas regenerativas ósseas e teciduais, em busca de uma estética, procedimentos e técnicas protéticas e cada vez mais materiais cerâmicos com propriedades fantásticas para nos auxiliarem na resolução de tantos problemas bucais, porém vejo muito pouco em relação ao tema prevenção, que é tão amplo e que pretendo abordar em uma próxima oportunidade.

Mas vejo muita valorização (novamente não de valor comercial, mas valor de significância, importância) dessas novas técnicas, procedimentos e materiais, dando-lhes mais importância do que aos próprios dentes; saudáveis ou não. Vejo dentes com problemas endodônticos sendo extraídos diariamente para substituição por implantes dentais. Dentes com problemas periodontais, sendo condenados sem nem ao menos receberem tratamentos, para futura substituição também por implantes. Dentes saudáveis sendo condenados para a instalação de uma prótese total implanto-suportada (no Brasil, conhecida como “Protocolo de Branemark”).

Será que tais Implantes serão mesmo o milagre da “3ª dentição”? Será que não estamos esquecendo e colocando no lixo todos os ensinamentos da Periodontia básica, tão antiga e eficaz, e ainda atual, principalmente em se tratando de implantes. Porém, qual o valor de um implante? Agora sim, no quesito comercial. E no quesito de importância? Será que não estamos confundindo os valores de dentes e implantes, e dando mais importância àquele que damos maior valor comercial, visto que nossos dentes nos foram dados gratuitamente?

Claro que também não quero parecer hipócrita, ao dizer que não extraio dentes e não faço implantes. Apenas acredito que devamos ter plena consciência e total responsabilidade ao estarmos tomando tal atitude.

Será que nossos implantes irão durar mais do que o dente iria durar, caso tivesse o tratamento de canal bem tratado, com instalação de um pino e uma coroa protética, com a correta manutenção periódica? Será que esses dentes com comprometimento periodontal não teriam um prognóstico favorável em alguns casos, inclusive com recomposição da estética?

Nem tão ao céu, nem tão à terra…

Ainda fico com a dúvida: quanto vale um dente?

Até a próxima e um forte abraço.

 


eduardo sampaioEduardo Sampaio
Periodontista e implantodontista. Professor de Pós-Graduação em Periodontia, Implantodontia e Prótese da Zenith Educação Continuada (Florianópolis – SC). Atua em clínica particular com ênfase em reabilitação oral estética e cirurgias plásticas periodontais e perimplantares. Sócio fundador do portal Periodonto.Net e palestrante em diversos congressos pelo Brasil.

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