No Dia Mundial da Saúde Bucal, celebrado em 20 de março, especialistas chamam atenção para um ponto muitas vezes negligenciado: a boca pode ajudar a revelar doenças silenciosas e estar na origem de infecções com impacto em todo o organismo. Revisões científicas indicam que lesões, mudanças de coloração, sangramentos, úlceras, aumento gengival e alterações salivares podem estar entre os primeiros sinais de diferentes doenças que afetam o corpo para além da cavidade oral.
A boca é uma porta de entrada para o corpo, inclusive para doenças. Nela, há uma variedade de bactérias, vírus, fungos e protozoários. As bactérias, em especial, têm potencial significativo para desencadear infecções e doenças graves com repercussões em todo o organismo.
Estudo recente, publicado em 2025 na revista JAMA Oncology mostrou que determinados perfis de bactérias e fungos da microbiota oral estiveram associados a um risco mais de três vezes maior de desenvolvimento de câncer de pâncreas, reforçando a relevância da saúde bucal e da Odontologia Preventiva.
Outra linha de investigação tem avaliado a relação entre saúde bucal e cérebro. Estudos recentes sugerem que a periodontite pode estar associada a maior risco de declínio cognitivo e doença de Alzheimer. Uma meta-análise, publicada também em 2025, encontrou essa relação, especialmente nos casos mais graves. Pesquisas anteriores também identificaram, em tecido cerebral de pacientes com Alzheimer, toxinas e microrganismos ligados à doença periodontal, embora a relação de causa e efeito ainda siga em investigação.
A periodontite também tem sido ligada a complicações sérias, incluindo partos prematuros, assim como doenças cardiovasculares e diabetes. Ainda que a Ciência venha reforçando a ligação entre saúde bucal e diferentes doenças, o cuidado preventivo continua fora da rotina de boa parte da população. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2019, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostram que mais de 50% dos brasileiros não realizam consultas odontológicas anuais, conforme recomendado.
“Em muitos casos, isso acontece por dificuldade de acesso à saúde, mas também porque a ida ao dentista ainda é subestimada por uma parcela da população, inclusive entre pessoas com condições de manter consultas regulares. É notório o número de casos que já identificamos em check-ups bucais, como o de um paciente com baixa saturação de oxigênio em razão de obstrução das vias aéreas, quadro diagnosticado durante uma avaliação odontológica. O problema é que muitos ainda associam o dentista apenas ao tratamento da dor ou a procedimentos estéticos. Ir ao dentista é tão importante quanto realizar exames de sangue, urina ou imagem. Isso porque a Odontologia não se resume aos dentes”, destaca Marcelo Kyrillos, sócio-diretor da clínica Ateliê Oral, em São Paulo.
O porta-voz cita o caso de um paciente cujo exame bucal revelou um problema muito mais sério do que se imaginava: um mal posicionamento na língua que obstruía as vias aéreas durante o sono. O quadro comprometia severamente a respiração noturna e colocava o paciente em uma situação de risco. O tratamento odontológico envolveu o reposicionamento dos dentes dentro das bases ósseas e o correto alinhamento dos maxilares, com o objetivo de restabelecer a passagem de ar. O paciente utilizou aparelho ortodôntico e outros recursos para correção da mordida e do alinhamento dentário, além de ter sido submetido a cirurgia para adequação das bases ósseas e desobstrução das vias aéreas. Como resultado, o índice de oxigenação passou de 53% – muito abaixo do normal – para 98%. Sem um exame detalhado, dificilmente esse paciente teria descoberto a gravidade do problema a tempo.
O que pode ser identificado em um exame bucal
Osteoporose: acredite ou não, o dentista pode ser o primeiro profissional de saúde a detectar sinais de osteoporose. Isso porque a perda dentária, o recuo da gengiva e dentes com mobilidade mais acentuada são indicadores dos estágios iniciais da doença, caracterizada pelo afinamento gradual da densidade óssea e que acomete mais comumente mulheres a partir dos 50 anos.
Refluxo: dentes rachados, desgastados ou com erosão do esmalte podem sinalizar refluxo gastroesofágico. Isso acontece quando o ácido do estômago retorna ao esôfago e pode chegar até a boca, desgastando a superfície dos dentes. Como a perda do esmalte é irreversível, a identificação precoce é importante para evitar a deterioração acelerada.
Ansiedade e depressão: desgaste do esmalte dos dentes e queixas de dor nos maxilares e na região cervical, na cabeça e no pescoço, podem estar associados a quadros de bruxismo, ansiedade e, em alguns casos, depressão. Nessas situações, reparar o dano dentário de forma isolada pode não resolver o problema. O papel do dentista é perceber esses sinais durante o exame e, quando necessário, orientar o paciente a buscar avaliação médica para investigar e tratar a causa.
Câncer de boca: lesões na cavidade oral ou nos lábios que não cicatrizam por mais de 15 dias, dor persistente na boca, na garganta ou no ouvido, dificuldade para engolir, nódulos na boca, garganta ou no pescoço que não diminuem, rouquidão ou mudanças na voz que persistem, podem ser sinais de alerta.
Anemia: além de sintomas como fadiga, palidez, falta de ar e tontura, a anemia pode se manifestar na boca por meio de alterações na língua, que pode ficar mais lisa, pálida e sem sua textura habitual.
Diabetes: o diabetes pode aumentar o risco de infecções nas gengivas e nos ossos que sustentam os dentes, ocasionando a perda dentária e deixando, frequentes, as gengivas vermelhas e sensíveis. Importante ainda dar atenção ao sangramento gengival, que é frequentemente um dos primeiros sinais de doença periodontal, e pessoas com diabetes têm maior risco de desenvolver essa condição.
A boca é a porta de entrada para o corpo
Assim como alterações na cavidade oral podem ajudar a identificar doenças, a boca também pode funcionar como porta de entrada para outras. Infecções bucais aparentemente simples, como cáries e gengivite, também podem favorecer a entrada de bactérias na corrente sanguínea, com potencial de repercussão em diferentes partes do organismo.
Doenças cardiovasculares: segundo revisão publicada em 2024 na BMC Oral Health, a periodontite está associada a um risco cerca de 20% maior de doenças cardiovasculares, entre elas aterosclerose, arritmias cardíacas, acidente vascular cerebral (AVC) e infarto do miocárdio.
Diabetes: a relação entre diabetes e saúde bucal é de mão dupla. De um lado, a periodontite aumenta a inflamação no corpo e pode dificultar o controle glicêmico, conforme tratado acima. De outro, o próprio diabetes aumenta o risco de infecções bucais, especialmente na gengiva e nos tecidos de sustentação dos dentes, criando um ciclo que pode agravar as duas condições.
Pneumonia: bactérias presentes na boca podem ser aspiradas para os pulmões, especialmente durante o sono, e contribuir para o desenvolvimento de pneumonia. Esse risco é maior em pessoas com higiene bucal deficiente, dificuldade de deglutição, imunidade comprometida ou em situação de maior fragilidade clínica. Em ambiente hospitalar, a atenção à higiene oral é ainda mais importante, já que a presença de bactérias orais pode aumentar o risco de pneumonia associada à ventilação mecânica, uma das complicações mais graves em pacientes internados.
Parto prematuro: na gestação, a atenção à saúde bucal deve ser redobrada. Estudos associam a periodontite a maior risco de complicações como parto prematuro e baixo peso ao nascer. Por isso, o acompanhamento odontológico durante o pré-natal é parte importante do cuidado com a saúde da gestante e do bebê.
Como se proteger
O especialista faz um alerta: é importante fazer uma distinção – check-up bucal não é sinônimo de limpeza de tártaro com aplicação de flúor. “O correto é que o dentista realize um exame clínico aprofundado. Isso inclui avaliar mordida, respiração, posição dos dentes, estruturas ósseas, desgastes, lesões e outros indícios que possam apontar alterações mais amplas”, explica. A depender da clínica, os exames podem ser mais criteriosos. “Eu geralmente incluo fotografias da face e o escaneamento dos dentes para avaliar a harmonia das bases ósseas, além de tomografia, um exame esquelético em 3D que permite analisar maxilares e dentes com mais precisão.”, destaca o especialista.
Para quem busca procedimentos estéticos, o alerta é ainda mais importante. Antes de qualquer intervenção, é fundamental passar por um dentista com experiência em diagnóstico e que valorize uma avaliação bucal detalhada. Sem esse cuidado, há o risco de mascarar sinais de doenças ou adiar a identificação de problemas que já estavam em curso.
Informações da Assessoria de Imprensa
