Cuidados bucais direcionados ao paciente com paralisia cerebral

Por: Vanessa Navarro

A paralisia cerebral (PC) refere-se a um grupo de desordens no desenvolvimento do controle motor e da postura, como resultado de uma lesão cerebral. De acordo com informações da cirurgiã-dentista Fernanda Urbini Romagnolo, especialista em pacientes com necessidades especiais, a lesão pode ocorrer durante a gestação, no nascimento e no período que se segue. Ela não se agrava, não progride, mas gera algumas limitações. “Podemos classificar a desordem de acordo com a localização das lesões cerebrais. A PC Espástica, responsável por 75% dos casos, é uma lesão no córtex motor do cérebro, região que comanda primariamente os movimentos. Os músculos ficam com a força diminuída, e o tônus aumentado. A PC Atetoide/Extrapiramidal abrange 18% das ocorrências. É uma lesão nos núcleos da base ou sistema extrapiramidal – áreas mais profundas do cérebro que são responsáveis pela modulação do movimento, ou seja, o movimento acontece de forma exagerada e involuntária. A PC tipo Atáxico ocorre em 2% dos casos. É uma lesão no cerebelo, área do SNC responsável pelo equilíbrio e coordenação. Os pacientes apresentam tremores, ausência de coordenação motora, alteração na fala e comprometimento mental”.

A especialista enfatiza que, dependendo da distribuição do comprometimento motor, é possível ter a Tetraparesia, que consiste nos membros superiores e inferiores comprometidos com a mesma gravidade; a Diparesia, quando os membros inferiores são os mais comprometidos; além da Hemiparesia, que é o comprometimento de um lado do corpo, direito ou esquerdo, dependendo do hemisfério cerebral que foi lesado.

“A incidência de paralisia cerebral no mundo é de 2% nos países desenvolvidos e de 2,5% naqueles em desenvolvimento. No Brasil, é estimada a ocorrência de 30 a 40 mil casos novos de PC por ano”, esclarece Fernanda Urbini Romagnolo, que também é habilitada em Analgesia/Sedação e em Odontologia Hospitalar.

Alterações bucais mais comuns

Pacientes com paralisia cerebral possuem dificuldade na coordenação motora, resultando em grande acúmulo de biofilme, lesões de cárie e doenças periodontais. Os traumas dentários, relacionados às quedas, também muito são frequentes. “A falta de coordenação para abrir e fechar a boca, assim como a dificuldade de movimentar a língua causam impedimento na sucção, na deglutição, na mastigação, no ato de cuspir e de bochechar. A redução do fluxo salivar e o aumento na osmolaridade da saliva, geram uma hipohidratação geral”, explana a cirurgiã-dentista. “São respiradores bucais e apresentam maloclusões – protrusão dos dentes anteriores superiores, sobremordida, mordida aberta anterior, mordida cruzada unilateral e apinhamento dentário. O bruxismo é observado, assim como a diminuição da dimensão vertical”, completa Fernanda Urbini Romagnolo.

Sobre a importância de encaminhar esse paciente ao cirurgião-dentista especialista em pacientes com necessidades especiais, a cirurgiã-dentista explica que, para o profissional não familiarizado com o atendimento, a presença de movimentos involuntários, bem como a presença de reflexos tônicos e a dificuldade de comunicação verbal podem ser interpretadas como falta de cooperação do paciente. “Se as exigências do paciente estiverem além das habilidades do profissional, ele deverá ser encaminhado ao profissional preparado, para assegurar a saúde integral do paciente”.

Existem manuais práticos para promover o atendimento odontológico ideal para os pacientes com paralisia cerebral, mas, segundo a especialista em pacientes com necessidades especiais, o problema de se criar um protocolo de atendimento ideal para pacientes com PC é realmente a diversidade das situações, tanto pela heterogeneidade dos pacientes como pelas diversas condições bucais, sociais e demográficas.

Promoção do atendimento

Muitas limitações são observadas pelo profissional de saúde bucal que presta atendimento odontológico ao paciente com paralisia cerebral.

A cirurgiã-dentista ressalta que a assistência odontológica aos pacientes com PC apresenta algumas características próprias, devido às certas limitações que esses pacientes normalmente apresentam. “As funções neurológicas de postura, movimento e equilíbrio se encontram desorganizadas. Os músculos responsáveis pela realização e controle destas funções têm o tônus alterado, e são incapazes de realizá-los de forma ordenada. Todos estes distúrbios resultam, por sua vez, em problemas de aprendizagem e dificuldade de comunicação”.

A especialista ainda explica que o profissional deve se preocupar com a correta manutenção do tônus muscular e adequado posicionamento postural. “O controle dos movimentos involuntários é muito importante. A sensação de desconforto, desequilíbrio, queda e instabilidade postural sentida por eles, quando posicionados em uma cadeira odontológica convencional, gera medo, angústia e estresse”.

O atendimento multidisciplinar é uma das chaves principais para realizar um atendimento de qualidade e promover o bem-estar do paciente. “Ao planejar o tratamento odontológico de pacientes que requerem cuidados médicos especiais, o cirurgião-dentista precisa estar em contato com os profissionais de saúde que o acompanham, garantindo, dessa forma, um atendimento seguro e de qualidade. O cirurgião-dentista e sua equipe devem estar sempre preparados para controlar qualquer emergência médica”, instrui a cirurgiã-dentista Fernanda Urbini Romagnolo, que também é mestranda em Odontopediatria.

É preciso lembrar que o cirurgião-dentista possui um papel muito importante junto à família desses pacientes, a respeito de orientações sobre a saúde bucal – prevenção e tratamento. A especialista explica que a pessoa com paralisia cerebral exige um atendimento individualizado e humanizado, sendo fundamental a construção de uma relação de confiança entre o dentista, o paciente, os pais e/ou cuidadores. “Por ser uma condição crônica, desafia a família e o paciente a conviverem com as limitações e as adaptações, mas é muito importante ressaltar que a qualidade de vida e a saúde geral desse paciente estão precisamente relacionadas com boas condições de saúde bucal. Nesse sentido, é fundamental um acompanhamento odontológico efetivo, para que possa receber cuidados preventivos específicos e orientações de rotina atualizadas. O intervalo ideal entre as consultas será determinado pelo cirurgião-dentista, de acordo com o risco para o desenvolvimento da doença cárie e da doença periodontal”.

Dicas essenciais para promover o atendimento

  • Realize uma anamnese minuciosa, procurando conhecer as limitações físicas, mentais, a saúde geral do paciente e sua história médica.
  • Posicione o paciente confortavelmente na cadeira odontológica, utilizando almofadas de posicionamento que se adaptam ao corpo do paciente, proporcionando mais conforto e estabilização dos movimentos.
  • Mantenha o paciente em posição inclinada, evitando deixá-lo completamente deitado, facilitando a deglutição.
  • Utilize abridores de boca, pois apresentam limitações na abertura bucal ou dificuldades em manter a boca aberta por um determinado período.
  • Evite movimentos bruscos que possam desencadear o reflexo da tonicidade do pescoço assimétrica, o reflexo da tonicidade do labirinto e o reflexo do susto.
  • Para evitar a fadiga muscular do paciente, planeje consultas curtas.
  • Dê importância à acessibilidade no local de atendimento – rampas, corrimãos, portas com medidas especiais, banheiros adaptados, vagas especiais.

“Lembre-se que o atendimento domiciliar é considerado uma proposta alternativa. Descubra novos caminhos e possibilidades, o preparo profissional deve ser contínuo”, conclui a cirurgiã-dentista Fernanda Urbini Romagnolo.

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA