Correr virou um verdadeiro fenômeno no Brasil. Parques, avenidas e ruas tomadas por corredores são o reflexo de um movimento que também aparece nos números: somente em 2025, o país realizou 5.241 corridas de rua oficiais, um crescimento de 85% em relação às 2.827 provas registradas no ano anterior, segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO). E, à medida que cresce o número de praticantes, também aumenta o interesse por tudo o que pode ajudar a melhorar o desempenho, principalmente a suplementação durante os treinos e provas. Entre esses recursos, os carboidratos têm papel importante, principalmente em atividades mais prolongadas, mas especialistas alertam sobre os riscos à saúde oral, já que esses suplementos requerem cuidados especiais com os dentes.
“Géis, gomas, bebidas esportivas, mel e combinações de glicose, maltodextrina e frutose são algumas das alternativas utilizadas para fornecer energia ao organismo durante o exercício e ajudar a sustentar a performance”, explica a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). “Mas a exposição frequente da boca a carboidratos fermentáveis, muitas vezes combinada à redução do fluxo salivar durante o exercício e à acidez de alguns produtos, pode criar condições favoráveis para o desenvolvimento de cáries e outros danos à estrutura dental. Glicose, sacarose, frutose, maltodextrina e outros carboidratos fermentáveis podem servir de substrato para bactérias presentes no biofilme dental. Essas bactérias metabolizam os carboidratos e produzem ácidos, provocando uma queda do pH ao redor dos dentes. Quando esse fenômeno acontece repetidamente e supera a capacidade de recuperação do esmalte, aumenta o processo de desmineralização e, consequentemente, o risco de cárie”, explica o cirurgião-dentista Prof. Dr. Hugo Lewgoy, doutor pela USP e consultor científico da Curaprox.
A médica nutróloga explica que, em exercícios prolongados, principalmente quando há maior intensidade, os estoques de glicogênio vão sendo utilizados e a suplementação de carboidratos ajuda a manter a oferta energética ao organismo. “A quantidade e a estratégia precisam ser individualizadas de acordo com duração, intensidade, tolerância gastrointestinal e objetivo do atleta, mas, em determinados treinos e provas, simplesmente deixar de consumir carboidrato por medo da cárie não seria a melhor solução”, explica a médica nutróloga. “O problema está justamente nas características que tornam esses suplementos tão eficientes durante o exercício: são fontes de carboidratos de rápida disponibilidade e frequentemente consumidas várias vezes ao longo de uma mesma prova”, explica.
Quando o assunto é saúde oral, não importa apenas a quantidade total de carboidrato ingerida, mas também a frequência de exposição, segundo o Dr. Hugo. “E uma corrida longa reúne uma combinação particular de fatores: o atleta pode consumir pequenas doses de carboidrato repetidamente durante horas, além de apresentar redução do fluxo salivar relacionada à desidratação e à própria intensidade do exercício. A saliva é um dos principais mecanismos naturais de proteção da boca. Ela ajuda na limpeza, na neutralização dos ácidos e no processo de remineralização do esmalte. Durante uma corrida prolongada, principalmente quando existe boca seca, essa capacidade protetora pode ficar reduzida justamente no momento em que o corredor está fazendo exposições repetidas aos carboidratos”, destaca o Dr. Hugo Lewgoy.
A consistência de alguns produtos também merece atenção. “Géis, gomas e alimentos mais pegajosos podem permanecer por mais tempo aderidos às superfícies dentárias, enquanto bebidas esportivas podem ser ingeridas em pequenos goles sucessivos ao longo do exercício”, explica o cirurgião-dentista. Além disso, existe um segundo fenômeno que não deve ser confundido com a cárie. “Algumas bebidas, géis e suplementos esportivos apresentam formulações ácidas. Nesse caso, além dos ácidos produzidos pelas bactérias após o consumo de carboidratos, o próprio contato frequente com produtos de baixo pH pode contribuir para a erosão dental, que é a perda de estrutura mineral provocada diretamente por ácidos, sem participação bacteriana”, completa o Dr. Hugo.
Segundo o especialista, a estratégia deve ser tornar a rotina de suplementação menos agressiva à boca sem interferir no desempenho esportivo. “Uma medida muito simples é consumir água depois do gel, da goma ou de outra fonte concentrada de carboidrato. Além de fazer parte da própria estratégia de hidratação de muitos corredores, a água ajuda a remover resíduos que permaneceriam em contato com os dentes e reduz o tempo de exposição”, afirma o cirurgião-dentista. “Também é interessante evitar manter bebidas esportivas na boca por muito tempo ou fazer bochechos com elas antes de engolir. Quanto maior e mais frequente o contato do produto com as superfícies dentárias, maior tende a ser a exposição”, diz.
Já a escovação exige outro cuidado. “Depois da prova, é natural querer escovar os dentes imediatamente, mas, quando houver consumo frequente de produtos muito ácidos, o ideal é primeiro enxaguar a boca com água e aguardar aproximadamente 30 a 60 minutos antes da escovação. Em um ambiente recém-acidificado, a superfície do esmalte pode estar temporariamente mais vulnerável”, explica Dr. Hugo.
Mais importante do que tentar compensar os efeitos da suplementação somente depois da corrida é manter uma rotina de higiene oral eficiente todos os dias. “A cárie é multifatorial. O gel utilizado durante a corrida não provoca uma lesão isoladamente. O risco depende também da presença e do controle do biofilme, da frequência de consumo de carboidratos, da saliva, da exposição ao flúor e dos hábitos de higiene daquele paciente. Um corredor que sabe que fará exposições frequentes a carboidratos precisa ser ainda mais criterioso com o controle do biofilme”, afirma Lewgoy.
O especialista recomenda escovação cuidadosa pelo menos duas vezes ao dia, com uma escova ultrasoft, com 5460 cerdas ultramacias e cabeça compacta, permitindo alcançar todas as superfícies sem necessidade de aplicar força excessiva. “O creme dental fluoretado também tem papel importante na prevenção da cárie. Uma opção é o Enzycal 1450, que contém 1450 ppm de fluoreto de sódio e enzimas que auxiliam os mecanismos naturais de proteção da saliva. A higienização interdental diária com escovas do tipo CPS Prime também é indispensável, já que a escova convencional não consegue alcançar adequadamente todas as regiões entre os dentes”, diz o Dr. Hugo. “O objetivo não é fazer o corredor abandonar uma estratégia nutricional necessária. É ajustar dois cuidados que precisam caminhar juntos. Da mesma maneira que um atleta planeja hidratação, quantidade de carboidrato e horário de consumo, pode incorporar pequenas medidas para reduzir o impacto dessa rotina sobre os dentes”, diz o cirurgião-dentista.
Para a Dra. Marcella Garcez, a orientação também reforça a importância de olhar para o atleta de maneira integral. “Suplementação esportiva não deve ser entendida como o consumo aleatório de produtos. Existe um objetivo fisiológico e uma indicação. Quando a estratégia é bem planejada e acompanhada dos cuidados necessários, é possível obter o benefício do carboidrato para o exercício sem negligenciar outros aspectos da saúde”, finaliza a médica.
Informações da Assessoria de Imprensa
